domingo, 7 de dezembro de 2014

O som, a fúria e (acima de tudo) o tédio


"Why do the faithful have such a will, to believe in something.
And call it the name they choose, having chosen nothing"

Back-door angels,
Ian Anderson

Hoje se completam seis semanas desde as eleições. Mais de um mês já se passou desde que a presidente Dilma foi reeleita. E desde então tenho tentado manter minha atenção e interesse no noticiário político. Mas está difícil.
Entendo que os políticos e demais profissionais da res publica têm todos de se reposicionar em função dos resultados eleitorais, das vitórias e derrotas, e das perspectivas e apostas que se abrem. E o mesmo vale para a legião de interessados em abocanhar algum naco da farta e generosa oferta de despojos acessíveis aos amigos das diversas cortes patrimoniais do inevitável e onipresente Estado brasileiro, em todos os seus níveis e extensões.
Suponho também que os diversos tipos de militantes e simpatizantes têm de seguir alimentando e dando asas às suas identidades e ansiedades, mais ou menos recém-adquiridas, ou recém-radicalizadas, consultando todos os oráculos disponíveis e auscultando até os mais leves rumores e suspeitas de mobilização de aliados e, principalmente, inimigos.
Sei igualmente bem que os jornais, revistas e demais meios têm que seguir vendendo e faturando (e atendendo seus respectivos públicos e clientelas particulares - não necessária e publicamente discerníveis). E para isso há de se explorar até a última gota dos escândalos, ou esboços de projetos de escândalo disponíveis, ou ainda, quando essa oferta rarear, dos inúmeros debates, fofocas e picuinhas menores (mas nem por isso, às vezes, mais interessantes).
E finalmente, não ignoro que os coleguinhas da intelligentsia - ou intelligentsias - não têm como recusar sua douta colaboração nessa geleia geral cada vez mais célere e interconectada.
E tome de especulação no meio dessa entressafra ou limbo que se forma entre uma eleição geral e o início de novos governos eleitos e legislaturas (algo assim estimulante como o recesso de férias do futebol).
E dá-lhe interpretação sobre cada ínfimo detalhe de ação partidária ou discurso oficial, cada espasmo de agitação ou demonstração de inquietude social. Por mais irrelevantes que possam parecer (e sem esquecer o manancial inesgotável da repercussão ou reverberação ad infinitum das próprias intervenções críticas ou analíticas; de um lado ou de outro da lida).
Mas chega a ser cansativo o modo com que se tenta fabricar e repercutir factóides onde pode não existir (ainda) rigorosamente nada de publicamente relevante acontecendo.
Da ansiosa cobertura do mais recente episódio do velhíssimo enredo de corrupção nacional endêmica, a chamada Operação Lava-a-jato - adoro esses nomes de investigação que o pessoal arranja! Nunca consigo entender os significados; mas acho o máximo! Me lembra as séries de aventura que assistia quando moleque -, à emocionante (?!) reforma ministerial e sua bolsa de apostas em torno de nomes e especulações sobre mudanças de policies, e sem esquecer, é claro, da fascinante eleição para a presidência da Câmara, temos aí um coquetel realmente imperdível. Como alguém ainda pode sofrer de insônia num contexto como esse?!
Por favor, não me entendam mal.
Longe de mim lamentar os bons fundamentos do tédio que a atual democracia brasileira pode provocar. De modo algum.
Ao contrário de aparente maioria - ou minoria ruidosa -, meu ideal de democracia é exatamente isso: um porre. Onde nada acontece além de escândalos, CPIs, escaramuças recorrentes entre a situação e a oposição, combates encarniçados por sinecuras e prebendas em geral, especulações intermináveis em torno de platitudes, insinuações e discursos para boi dormir, e sem esquecer, obviamente, de regar tudo com boas doses de sensacionalismo barato e, não raro, irresponsável. Em suma: muita espuma, som e fúria, pairando nefelibaticamente sobre o funcionamento regular e comezinho das mesmas vetustas e mal-apreciadas instituições ditas democráticas.
Compreendo e acho tudo, portanto, perfeitamente normal.
Cada um tem de seguir jogando seu jogo, desempenhando seu papel.
E enquanto houver campeonato - ou encenação - ainda estamos no lucro.
Mas que me dá um sono danado e uma vontade enorme de ler de tudo, menos o noticiário político...

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