segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

“Não vamos nos dispersar!” (de novo)

Poucas semanas antes do segundo turno das eleições presidenciais passadas, antecipei aqui, neste blog, o que era perfeitamente óbvio: o início do chamado "terceiro turno"; ou seja, a previsível manutenção de um clima de radicalização e troca de gentilezas entre os dois lados da disputa, por conta dos ressentimentos acumulados por vinte anos de rivalidade entre PT e PSDB, devidamente acirrados na dura campanha deste ano (e sem poder prever então também a pequena margem relativa de votos que separaria, afinal, a candidata vencedora e reeleita, do desafiante, segundo colocado; o que certamente haveria de contribuir ainda mais para a insegurança geral e para aumentar a dificuldade em aceitar a derrota para o lado perdedor).
Só isso já seria mais do que o suficiente para compreender o estado de ânimo nas fileiras e nas altas cúpulas do tucanato (e sem esquecer, é claro, o quanto os desdobramentos da investigação e exploração jornalística do escândalo de corrupção na Petrobras colocam ainda mais lenha nessa fogueira).
Mas tenho a nítida impressão de que há ainda outras razões para o estado atual de excitação tucana, em especial o do novo presidente e líder do partido, o próprio candidato derrotado, Senador Aécio Neves.
Já tem sido levantado por muitos observadores o quanto a conjugação paradoxal do excelente desempenho obtido por Aécio no plano nacional, mesmo perdendo, de par, contudo, com a preocupante derrota pessoal em seu estado, Minas Gerais - onde não somente foi derrotado diretamente, como candidato, mas onde seu partido perdeu a hegemonia local, após seus dois mandatos como governador (e criador de seu sucessor) - colocam o seu futuro político numa encruzilhada de alta voltagem: de um lado, perspectivas de altos voos no contexto federal mais amplo; de outro, a necessidade urgente de reconstruir suas bases locais de sustentação, diante da máquina do estado, agora controlada por seus maiores rivais. Daí, talvez, os arroubos do mineiro em se apresentar logo como líder inconteste da oposição ao governo Dilma (com arengas que chegam até a lembrar espécimes de aves ilustres, mas relativamente agourentas do passado; muito mais para corvos do que para tucanos...).
Mas também é fato que desde as grandes vitórias de FHC nas eleições da década de 1990, nunca um candidato peessedebista chegou tão perto da vitória, nem amealhou tantos votos quanto Aécio neste ano: mais de 50 milhões. Não é pouca coisa. E embora tanto Serra quanto Alckmin, em suas derrotas anteriores para o PT, também tenham obtido desempenhos bem razoáveis - levaram a disputa para o 2º turno e lá obtiveram votações expressivas, em torno dos 30, 40 milhões - é certo que alguma outra coisa parece, portanto, estar agitando de modo inédito o ninho desses pássaros orgulhosos.
Se no apogeu do Plano Real e do prestígio de FHC a hegemonia tucana parecia flutuar sobre a chamada grande maioria silenciosa, numa onda geral de alívio e euforia pela domesticação, afinal, do monstro da hiperinflação – enquanto a maré montante do PT ainda se debatia nas amarras de suas próprias contradições e imaturidades internas –, com a vitória do "Lulinha Paz e Amor" em 2002, a chegada inédita das caravanas petistas ao poder, e o sucesso da relativamente surpreendente combinação inicial de estabilidade com crescimento econômico e distribuição de renda da “Era Lula”, não somente processou-se a maior alternância democrática de poder da história do Estado brasileiro. Com novíssimos inquilinos adentrando os vastos palácios da corte.
Em primeiro lugar, estabeleceu-se, é claro, uma nova dinâmica de vínculos diretos entre o Poder Central e a massa cidadã. Mas alterou-se também o caráter da relação entre a máquina desse mesmo Estado e a sociedade civil. Alteraram-se os canais de acesso e a dinâmica das disputas pelo poder. Em especial na arena mais democraticamente decisiva: a eleitoral.
O atual assanhamento tucano, mesmo após a quarta derrota consecutiva para o seu maior rival, parece-me dever-se ao fato de que, talvez pela primeira vez, os milhões de votos obtidos pela oposição não refletem essencialmente apenas o resultado de uma campanha passada, seus erros e acertos estratégicos; não. Dessa vez, eles parecem trazer consigo a oportunidade do encontro do PSDB não com uma maioria mais ou menos fortuita e difusa, mas igualmente volúvel e volátil – capaz de hoje entronizar subitamente uma liderança ou plataforma, para amanhã abandoná-la, com a mesma sem-cerimônia – mas sim com uma minoria significativa: militante ou simpatizante, mais consistente e duradoura.
A ansiedade tucana, para além de todas as boas razões mencionadas, e a essa altura do calendário – ainda tão longe das próximas eleições -, parece se alimentar também da expectativa e busca da fidelização dos setores mais ativos e engajados do significativo contingente de eleitores que levaram a candidatura presidencial do PSDB bem mais longe do que se esperava. Ânsia de vincular-se talvez mais fortemente e de modo mais duradouro a setores organizados da sociedade brasileira, mas acima de tudo, de finalmente arregimentar-se uma militância tucana numericamente respeitável, efetivamente digna desse nome, capaz enfim de rivalizar com o PT e acabar com seu histórico monopólio nacional do status de “partido de massas”.
Ou seja: não se trata apenas, para o PSDB, de seguir fustigando o governo, no papel que cabe naturalmente à oposição (ainda mais diante de um filão como esse da Petrobras). Esticar a campanha eleitoral e manter o terceiro turno vivo e saltitante é muito mais do que adiar a ressaca da derrota: é tentar manter mobilizada a legião que se formou em torno de Aécio (ou contra Dilma e o PT). Assim, como vovô Tancredo, há coisa de 30 anos, nos desdobramentos da campanha das “Diretas Já!” – mas também Collor de Mello, ao tomar posse, em 1990 –, cabe agora ao líder tucano repetir o velho bordão e evitar a dispersão do movimento.
A questão que se coloca agora, pois, é: até onde pode ir o sonho de uma militância tucana de massas e de uma ampliação significativa da rede de capilarização do partido junto à sociedade civil, capaz de fazer frente a tudo que o PT construiu quase que exclusivamente em sua hoje longa trajetória (e talvez agora desgastado pelo exercício continuado do poder e seus altos custos)?
Quão efêmero pode ser o engajamento dos apoiadores e simpatizantes do PSDB? Como fazer de uma possível e mais ou menos consistente massa antipetista, uma força de mobilização mais permanente e comprometida com os planos de voo específicos do tucanato?
Como ir além da mera repetição dos slogans e fazer história nova?

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