Poucas semanas antes do segundo turno das eleições
presidenciais passadas, antecipei aqui, neste blog, o que era perfeitamente óbvio: o início do chamado
"terceiro turno"; ou seja, a previsível manutenção de um clima de
radicalização e troca de gentilezas entre os dois lados da disputa, por conta
dos ressentimentos acumulados por vinte anos de rivalidade entre PT e PSDB,
devidamente acirrados na dura campanha deste ano (e sem poder prever então
também a pequena margem relativa de votos que separaria, afinal, a candidata
vencedora e reeleita, do desafiante, segundo colocado; o que certamente haveria
de contribuir ainda mais para a insegurança geral e para aumentar a dificuldade
em aceitar a derrota para o lado perdedor).
Só isso já seria mais do que o suficiente para
compreender o estado de ânimo nas fileiras e nas altas cúpulas do tucanato (e
sem esquecer, é claro, o quanto os desdobramentos da investigação e exploração
jornalística do escândalo de corrupção na Petrobras colocam ainda mais lenha
nessa fogueira).
Mas tenho a nítida impressão de que há ainda outras
razões para o estado atual de excitação tucana, em especial o do novo
presidente e líder do partido, o próprio candidato derrotado, Senador Aécio
Neves.
Já tem sido levantado por muitos observadores o quanto
a conjugação paradoxal do excelente desempenho obtido por Aécio no plano
nacional, mesmo perdendo, de par, contudo, com a preocupante derrota pessoal em
seu estado, Minas Gerais - onde não somente foi derrotado diretamente, como
candidato, mas onde seu partido perdeu a hegemonia local, após seus dois
mandatos como governador (e criador de seu sucessor) - colocam o seu futuro
político numa encruzilhada de alta voltagem: de um lado, perspectivas de altos voos
no contexto federal mais amplo; de outro, a necessidade urgente de reconstruir
suas bases locais de sustentação, diante da máquina do estado, agora controlada
por seus maiores rivais. Daí, talvez, os arroubos do mineiro em se apresentar logo
como líder inconteste da oposição ao governo Dilma (com arengas que chegam até a
lembrar espécimes de aves ilustres, mas relativamente agourentas do passado; muito
mais para corvos do que para tucanos...).
Mas também é fato que desde as grandes vitórias de FHC
nas eleições da década de 1990, nunca um candidato peessedebista chegou tão
perto da vitória, nem amealhou tantos votos quanto Aécio neste ano: mais de 50
milhões. Não é pouca coisa. E embora tanto Serra quanto Alckmin, em suas
derrotas anteriores para o PT, também tenham obtido desempenhos bem razoáveis -
levaram a disputa para o 2º turno e lá obtiveram votações expressivas, em torno
dos 30, 40 milhões - é certo que alguma outra coisa parece, portanto, estar
agitando de modo inédito o ninho desses pássaros orgulhosos.
Se no apogeu do Plano Real e do prestígio de FHC a
hegemonia tucana parecia flutuar sobre a chamada grande maioria silenciosa,
numa onda geral de alívio e euforia pela domesticação, afinal, do monstro da
hiperinflação – enquanto a maré montante do PT ainda se debatia nas amarras de
suas próprias contradições e imaturidades internas –, com a vitória do
"Lulinha Paz e Amor" em 2002, a chegada inédita das caravanas
petistas ao poder, e o sucesso da relativamente surpreendente combinação
inicial de estabilidade com crescimento econômico e distribuição de renda da
“Era Lula”, não somente processou-se a maior alternância democrática de poder
da história do Estado brasileiro. Com novíssimos inquilinos adentrando os
vastos palácios da corte.
Em primeiro lugar, estabeleceu-se, é claro, uma nova
dinâmica de vínculos diretos entre o Poder Central e a massa cidadã. Mas
alterou-se também o caráter da relação entre a máquina desse mesmo Estado e a sociedade
civil. Alteraram-se os canais de acesso e a dinâmica das disputas pelo poder.
Em especial na arena mais democraticamente decisiva: a eleitoral.
O atual assanhamento tucano, mesmo após a quarta
derrota consecutiva para o seu maior rival, parece-me dever-se ao fato de que,
talvez pela primeira vez, os milhões de votos obtidos pela oposição não
refletem essencialmente apenas o resultado de uma campanha passada, seus erros
e acertos estratégicos; não. Dessa vez, eles parecem trazer consigo a
oportunidade do encontro do PSDB não com uma maioria mais ou menos fortuita e
difusa, mas igualmente volúvel e volátil – capaz de hoje entronizar subitamente
uma liderança ou plataforma, para amanhã abandoná-la, com a mesma sem-cerimônia
– mas sim com uma minoria significativa: militante ou simpatizante, mais
consistente e duradoura.
A ansiedade tucana, para além de todas as boas razões mencionadas,
e a essa altura do calendário – ainda tão longe das próximas eleições -, parece
se alimentar também da expectativa e busca da fidelização dos setores mais
ativos e engajados do significativo contingente de eleitores que levaram a candidatura
presidencial do PSDB bem mais longe do que se esperava. Ânsia de vincular-se talvez
mais fortemente e de modo mais duradouro a setores organizados da sociedade brasileira,
mas acima de tudo, de finalmente arregimentar-se uma militância tucana
numericamente respeitável, efetivamente digna desse nome, capaz enfim de
rivalizar com o PT e acabar com seu histórico monopólio nacional do status de “partido de massas”.
Ou seja: não se trata apenas, para o PSDB, de seguir
fustigando o governo, no papel que cabe naturalmente à oposição (ainda mais
diante de um filão como esse da Petrobras). Esticar a campanha eleitoral e manter
o terceiro turno vivo e saltitante é muito mais do que adiar a ressaca da
derrota: é tentar manter mobilizada a legião que se formou em torno de Aécio
(ou contra Dilma e o PT). Assim, como vovô Tancredo, há coisa de 30 anos, nos
desdobramentos da campanha das “Diretas Já!” – mas também Collor de Mello, ao
tomar posse, em 1990 –, cabe agora ao líder tucano repetir o velho bordão e evitar
a dispersão do movimento.
A questão que se coloca agora, pois, é: até onde pode
ir o sonho de uma militância tucana de massas e de uma ampliação significativa
da rede de capilarização do partido junto à sociedade civil, capaz de fazer
frente a tudo que o PT construiu quase que exclusivamente em sua hoje longa
trajetória (e talvez agora desgastado pelo exercício continuado do poder e seus
altos custos)?
Quão efêmero pode ser o engajamento dos apoiadores e
simpatizantes do PSDB? Como fazer de uma possível e mais ou menos consistente massa
antipetista, uma força de mobilização mais permanente e comprometida com os planos
de voo específicos do tucanato?
Como ir além da mera repetição dos slogans e fazer
história nova?
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