segunda-feira, 9 de março de 2015

Back to the Musical Box

Não. Não assisti ao discurso de Dilma, nem às reações mais ruidosas ao mesmo.
Tinha coisa muito melhor para fazer então: deliciar-me com o único e imperdível show de Steve Hackett no Rio.
Para quem não sabe, ou não se lembra, Hackett era a guitarra solo do Genesis na fase áurea do grupo inglês, um quinto de uma das mais felizes e criativas reuniões do prolífico estilo conhecido nos anos 1970 como rock clássico, progressivo ou sinfônico. Quem teve o privilégio de assistir e ouvir o show que deu ontem com sua nova e afiadíssima banda, com uma seleção primorosa de grandes criações do passado, pode entender porque aquele tipo de música tinha tal alcunha. Com uma parafernália de grandes ideias musicais e arranjos altamente sofisticados, mas perfeitamente fluentes e arrebatadores, o revival do Genesis me deu grande prazer, algumas certezas e uma profunda tristeza.
A primeira é que Hackett é mesmo um músico de primeira, que sabe usar sua técnica refinada em benefício da forma e não do efeito. Não sei bem até hoje porque saiu da banda, depois de participar da gravação de discos antológicos como Nursery crime, Foxtrot, Selling England by the pound, e The lamb lies down on Broadway, entre outros, mas das duas uma: ou não havia mesmo lugar para ele na guinada pop que a banda daria em seguida à sua saída, ou em função desta a própria banda teve reduzida sua capacidade, digamos, sinfônica.
Mas não importa. Porque em segundo lugar, o atual show de Hackett e seus ótimos acompanhantes é um belo tributo ao talento dos outros quatro parceiros originais. A música que ele fez nos 70 com Mike Rutherford, Phil Collins, Peter Gabriel e Tony Banks é simplesmente mágica.
Por isso mesmo que embora todos no time atual deem conta do recado, num show praticamente perfeito, não posso deixar de mencionar o quanto senti saudades ontem do velho Peter Gabriel. O vocalista atual de Hackett, Nad Sylvan, bem que se esforça e faz a sua parte. Mas para não ser engolido por músicos tão virtuosos o cantor de uma banda como o Genesis tem sempre de ter um carisma fora do comum. E eu não tenho outra definição para Gabriel.
Enfim, diante de tanto prazer musical, restam apenas algumas tristes constatações.
Uma: impressionante a quantidade de chatos que aparecem em shows e espetáculos hoje em dia! Gente incapaz de calar a boca e deixar os vizinhos em paz (mas também que ideia antiquada! Onde já se viu: querer prestar atenção na música num show de... Música!).
Mas aí está a principal fonte de desânimo: será que ainda se tem a simples noção - principalmente a rapaziada mais jovem - de que se pode elevar a música (ou qualquer forma de arte) a tal ponto de tornar a sua simples fruição uma experiência realmente importante? Não somente inesquecível, mas também transformadora das próprias percepções e concepções?
Sei que vou soar velho e elitista - e que certamente vai aparecer alguém ainda mais chato do que eu para ridicularizar meu gosto e meus objetos de prazer estético. Sem falar dos cínicos que vão reduzir tudo à dimensão mais rastaquera das imposições do show business e da onda de revivals que impera. Tudo bem
Mas não seria trágico se de repente – ou pior: paulatinamente – certas experiências privilegiadas de fruição estética e formação do gosto simplesmente desaparecessem?
Por isso mesmo agradeço a Steve Hackett e a todas as circunstâncias que o levaram a me dar essa oportunidade única de lembrar como a música que ajudou a me formar na juventude – e toda arte feita com paixão, esforço e talento – pode ser tão rica e imprescindível. 

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