Não.
Não assisti ao discurso de Dilma, nem às reações mais ruidosas ao mesmo.
Tinha
coisa muito melhor para fazer então: deliciar-me com o único e imperdível show
de Steve Hackett no Rio.
Para
quem não sabe, ou não se lembra, Hackett era a guitarra solo do Genesis na fase
áurea do grupo inglês, um quinto de uma das mais felizes e criativas reuniões
do prolífico estilo conhecido nos anos 1970 como rock clássico, progressivo ou
sinfônico. Quem teve o privilégio de assistir e ouvir o show que deu ontem com
sua nova e afiadíssima banda, com uma seleção primorosa de grandes criações do
passado, pode entender porque aquele tipo de música tinha tal alcunha. Com uma
parafernália de grandes ideias musicais e arranjos altamente sofisticados, mas
perfeitamente fluentes e arrebatadores, o revival do Genesis me deu
grande prazer, algumas certezas e uma profunda tristeza.
A
primeira é que Hackett é mesmo um músico de primeira, que sabe usar sua técnica
refinada em benefício da forma e não do efeito. Não sei bem até hoje porque
saiu da banda, depois de participar da gravação de discos antológicos como Nursery
crime, Foxtrot, Selling England by the pound, e The
lamb lies down on Broadway, entre outros, mas das duas uma: ou não havia
mesmo lugar para ele na guinada pop que a banda daria em seguida à sua saída,
ou em função desta a própria banda teve reduzida sua capacidade, digamos,
sinfônica.
Mas
não importa. Porque em segundo lugar, o atual show de Hackett e seus ótimos
acompanhantes é um belo tributo ao talento dos outros quatro parceiros
originais. A música que ele fez nos 70 com Mike Rutherford, Phil Collins, Peter
Gabriel e Tony Banks é simplesmente mágica.
Por
isso mesmo que embora todos no time atual deem conta do recado, num show
praticamente perfeito, não posso deixar de mencionar o quanto senti saudades
ontem do velho Peter Gabriel. O vocalista atual de Hackett, Nad Sylvan, bem que
se esforça e faz a sua parte. Mas para não ser engolido por músicos tão
virtuosos o cantor de uma banda como o Genesis tem sempre de ter um carisma
fora do comum. E eu não tenho outra definição para Gabriel.
Enfim,
diante de tanto prazer musical, restam apenas algumas tristes constatações.
Uma:
impressionante a quantidade de chatos que aparecem em shows e espetáculos hoje
em dia! Gente incapaz de calar a boca e deixar os vizinhos em paz (mas também
que ideia antiquada! Onde já se viu: querer prestar atenção na música num show
de... Música!).
Mas
aí está a principal fonte de desânimo: será que ainda se tem a simples noção -
principalmente a rapaziada mais jovem - de que se pode elevar a música (ou
qualquer forma de arte) a tal ponto de tornar a sua simples fruição uma
experiência realmente importante? Não somente inesquecível, mas também
transformadora das próprias percepções e concepções?
Sei
que vou soar velho e elitista - e que certamente vai aparecer alguém ainda mais
chato do que eu para ridicularizar meu gosto e meus objetos de prazer estético.
Sem falar dos cínicos que vão reduzir tudo à dimensão mais rastaquera das
imposições do show business e da onda de revivals que impera.
Tudo bem
Mas
não seria trágico se de repente – ou pior: paulatinamente – certas experiências
privilegiadas de fruição estética e formação do gosto simplesmente
desaparecessem?
Por isso mesmo agradeço a Steve Hackett e a
todas as circunstâncias que o levaram a me dar essa oportunidade única de
lembrar como a música que ajudou a me formar na juventude – e toda arte feita
com paixão, esforço e talento – pode ser tão rica e imprescindível.
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