segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Historinhas II (ou, brincando – de mau gosto – com os números)

Segue em pleno vigor o festival de desfaçatez que assola o país.
Se na semana passada fomos brindados com tentativas ridículas de tapar o sol com a peneira – questionando-se os índices de desaprovação do Exmo. Presidente da República (“já que vai tudo tão bem! Como é possível alguém desaprovar o "governo"?!”) – logo em plena segunda-feira a Folha de S.Paulo destaca em sua edição que "Maioria do país quer Lula preso e Temer processado".
Embora não possa surpreender ninguém o destaque negativo dado ao noticiário sobre o ex-presidente (e agora também ao atual), dessa vez, porém, fiquei encafifado com a manchete. Afinal, não foi o próprio DataFolha, do mesmo grupo empresarial, que tornou pública, também na semana passada, nova pesquisa de intenção de voto na eleição presidencial prevista para o ano que vem, apontando Lula como favorito em todos os cenários previsíveis? Como é possível que a maioria do eleitorado demonstre, simultaneamente, intenção de eleger presidente e de ver preso o mesmo personagem?
Não, querido leitor. Não culpe o eleitorado (como é habitual no Brasil).
Nem culpe os números (e no caso, o DataFolha).
A confusão – intencional ou não – é de responsabilidade única e exclusiva do jornal.
Pois basta olhar não a manchete, mas sim os números no texto da própria matéria para perceber que, sim, é possível – ao menos no Brasil de hoje – que uma parcela considerável do eleitorado se disponha a reeleger Lula, enquanto que outra, também significativa, queira vê-lo atrás das grades (http://www1.folha.uol.com.br/poder/2017/10/1923447-brasileiro-quer-lula-preso-e-aval-a-denuncia-contra-temer.shtml?utm_source=newsletter&utm_medium=email&utm_campaign=newsfolha).
Deixando de lado a problemática hipótese – improvável, mas não de todo impossível – de que possa haver alguma interseção entre os dois contingentes, o problema conceitual mais evidente se encontra na própria noção de "maioria". Afinal, de que maioria se está falando? Maioria simples, absoluta, qualificada, ou quase unânime? Sem dúvida que o uso do termo – maioria – já é em si relevante. Mas as palavras enganam (manchetes de jornal, então...). Por isso é preciso prestar um pouco mais de atenção (inclusive porque já na abertura do texto linkado acima o autor da matéria não tem nenhum escrúpulo em transformar a tal "maioria" de entrevistados numa entidade um pouco maior, quase mítica e universal: "o brasileiro", que, segue a missiva, "defende a prisão" de um, assim como "o prosseguimento da denúncia" do outro).
Pois não pode haver nenhuma dúvida com relação à malandragem da edição jornalística quando se comparam, no próprio texto da matéria, as diferentes "maiorias": a pró-prisão de Lula (cerca de 54%) com a dos que querem ver Temer devidamente investigado: 89%! Ou seja: o que a manchete "iguala" é francamente problematizado pelo próprio texto. A não ser, é claro, que se julgue que "maiorias" de 54 ou de 89% não fazem a menor diferença! Ou que os 40% minoritários que se manifestam na mesma pesquisa contra a prisão de Lula possam ser facilmente comparados e equalizados aos 7% contrários a um eventual aval da Câmara para processar Temer. Há portanto uma "pequena" diferença entre o "brasileiro" que já condenou Lula e o que quer ver Temer sendo processado, e uma diferença de magnitude um "pouquinho" maior entre os que não concordam com os diferentes ordálios que espíritos mais severos – talvez os eméritos juízes da Folha de S. Paulo e companhia midiática ilimitada – gostariam de ver aplicados a cada um dos personagens em questão, em sua desinteressada ânsia por justiça a qualquer custo,.
Deixando de lado a, digamos, infelicidade da edição da notícia, fica, porém, mais claro porque ambos os resultados com relação a Lula podem ser estatisticamente válidos: a maioria que hoje – ou semana passada – o elegeria, não é obviamente a mesma que o mandaria hoje para a cadeia. Está última parece se referir mais à dos que rejeitam terminantemente o líder petista, conforme a pesquisa de intenção divulgada na semana anterior.
Nesse sentido, se corretas as duas pesquisas de opinião – e nossa hipótese de leitura das mesmas – o que efetivamente as enquetes apontam, entre outras coisas, é para a profunda polarização nacional. Em especial no que diz respeito a Lula e ao PT.
Nada de muito novo, portanto. Bastaria, aliás, observar na matéria os dados desmembrados da pesquisa, principalmente no que diz respeito à renda e localização dos entrevistados para imaginar com boa margem de segurança quem são os típicos componentes de cada "maioria" ou "minoria" (assim como perceber a ideia um tanto quanto exclusiva – e excludente – de "brasileiro" que os jornalistas da Folha – e algures – provavelmente cultivam hoje em dia...).
Quanto à Temer... bem (sugiro humildemente a leitura do meu penúltimo post neste blog, justamente sobre a evolução de sua "popularidade", e cujo título é "Historinhas (brincando - mas não brigando - com os números").

domingo, 1 de outubro de 2017

Historinha (ou brincando - mas não brigando - com os números)

Análise de pesquisas de opinião é sempre um negócio arriscado. Ainda mais quando você não tem acesso a muitos dados, não pode desmembrar os índices agregados, nem pode sair a campo para testar hipóteses ou mesmo meras possibilidades de hipóteses.
Mas olhando a evolução dos números sobre avaliação do "governo"Temer, ao longo desse seu  tenebroso primeiro ano, não deixa de ser sugestivo o modo como eles parecem delinear uma tendência constante e ininterrupta de aumento da desaprovação.
À princípio, não poderia surpreender a ninguém em seu juízo perfeito que a dita "administração" atual tenha conseguido bater os recordes de avaliação negativa que até hoje eram galhardamente sustentados pelo há muito finado Governo Sarney (1985-1990), em seus deprimentes estertores (mais exatamente no ano de 1989, não por acaso o da eleição do ex-caçador de marajás, Fernando Collor de Mello – candidato, então, ao papel recorrente de salvador da pátria amada, salve, salve!). Com efeito, não pode ser minimizado o fato de que desde pouco meses após usurpada a presidência da República por Temer e chegando até a última pesquisa encomendada ao Ibope pela CNI ( https://g1.globo.com/politica/noticia/governo-temer-e-aprovado-por-3-e-reprovado-por-77-diz-ibope.ghtml ), os inicialmente razoáveis índices de  aprovação e confiança no "governo" seguiram sistematicamente despencando, aferição após aferição.
Mas como então interpretar tal fato levando-se em conta, porém, que não foram poucos os apoiadores da chegada dessa coalizão ao Poder – como ainda hoje existem muitos que, de um modo ou de outro a sustentam ou justificam (em geral, com argumentos tão convincentes e inspiradores quanto uma poesia de sua Excelência presidencial) –, assim como segue intacta e cada vez mais autônoma a agenda de mudanças que unificou o poderoso movimento golpista (a despeito de rusgas e rivalidades que acometem seus partidários, além, é claro, das diferentes apostas que vão fazendo em torno das eleições de 2018 – incluída aí, também, obviamente, a possibilidade de se impedir as próprias eleições, promovendo-se então outro golpe dentro do golpe)?
Uma historinha que pode dar conta dessas contradições é simples (mas espero que não faça nenhum boi dormir): a talvez não tão impressionante e constante deterioração da popularidade do "governo" Temer parece espelhar fielmente a reação e o desapontamento de relativa maioria do eleitorado brasileiro diante da promessa fajuta – alimentada ad nauseam pelos golpistas, suas claques midiáticas, et caterva de intelectualóides disponíveis - de que uma vez extirpada a praga petista do Poder, e sobrevindo a isso uma nova coalizão partidária devidamente sólida em torno do novo capataz e seu competentíssimo e abnegado projeto de salvação nacional, todos os problemas econômicos do País se resolveriam automaticamente, e, por último, mas não menos importante, toda a desenfreada e desnuda corrupção seria castigada e suprimida (porque, afinal, qualquer criança brasileira "bem informada" sabe que a malversação de recursos públicos em Pindorama é não somente uma invenção do PT, como exclusividade de seus governos!).
Assim, bastou por um lado que o bolso da maioria dos cidadãos não apresentasse os devidos e esperados sinais de redenção. E nem mesmo as alvissareiras novas de redução da inflação e de queda dos juros parecem ter surtido, por enquanto, grandes impactos (já que vá lá explicar a um desses bem alimentados dândis televisivos da economia engravatada que para o comum dos mortais sem crédito e acesso ao sistema financeiro a redução da taxa de juros não chega a entusiasmar, ou que a redução da inflação pode não fazer tanta diferença assim, dependendo dos itens que compõem a média ou do patamar inicial dos preços que, eventualmente, param de subir ou mesmo descem; ainda mais, é óbvio, se você não tem nem salário digno nem rede de proteção social que lhe permitam consumir...).
Quanto ao fim da corrupção... bem. Alguém já disse, e outros repetiram, ao longo dos últimos quinhentos anos - ou seriam mil, dois mil? - que neste assunto o dito cujo fica um pouco mais embaixo.
Que o digam sua Excelência, sua qualificadíssima entourage, suas bases pra-lamentares, e os implacáveis defensores da moral pública e palmatórias da humanidade, na mídia, no Ministério Público, no Poder Judiciário. Graças à ação patriótica e perfeitamente harmônica de todos, o cidadão brasileiro cada dia sabe melhor o quão pode dormir descansado com relação a seus direitos fundamentais e ao destino seguro e eficaz do imposto que com tanto suor e alegria destinou aos encargos da "gerência".
Junte-se afinal, a tal enredo edificante que nos vem sendo legado há coisa de um ano pelos novos líderes da República, o conjunto portentoso de medidas e reformas que eles vêm promovendo com tanta presteza e espírito público, para o bem de todos e felicidade geral, e ainda caberia, mais uma vez, perguntar: é possível ter alguma dúvida dos porquês de tais índices de aprovação e confiança?

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

O Centro impossível

Desde o marco temporal inicial da crise atual – a aceleração da articulação política golpista, cujo desenlace foi o impeachment de Dilma – chama-me a atenção a angústia com que razoavelmente bem-intencionados espíritos tentam se equilibrar em algum ponto intermédio entre os que defenderam, de um modo ou de outro, a suspeita intervenção "cirúrgica" – para salvar a Pátria e sua economia saudabilíssima dos sanguinários bolivarianos populistas petistas (sem falar, é claro, dos velhíssimos, terríveis e incorrigíveis comunistas ressurretos) – e aqueles, ditos "esquerdopatas", ou "democratopatas", que, como eu, independentemente de diversas simpatias e antipatias partidárias e ideológicas, de um jeito ou de outro não aceitaram ver as instituições democráticas internamente subvertidas e a Constituição rasgada e achincalhada.
Se, no princípio, confesso, não tive muita paciência para com tal espécime de criatura indecisa ou volúvel – diante da clara e evidente ameaça institucional e social representada pelo golpismo -, hoje me sinto mais movido por uma sincera compaixão por eles, em especial aqueles que já se arrependeram por, de um modo ou de outro, subscrever o golpe. No mínimo, porque talvez se deram conta de que a emenda – ou seja, o novo status quo – consegue ser infinitamente pior do que qualquer diagnóstico negativo passado, dos mais tendenciosos, inclusive, sobre o "soneto" (quer dizer: o Brasil sob o governo legítimo de Dilma).
Mas a falta de paciência prévia e a compaixão atual derivam ambas da mesma e singela razão: nossa situação é tão grave que não há propriamente posição intermediária possível.
O chamado "centro" político se encontra hoje, a sério, rigorosamente inviabilizado. Mesmo que alguém ainda queira localizar algum resquício de legalidade no impeachment, qualquer tentativa de justificar o "programa" de "governo" posto em prática pelos usurpadores – e que não seja um caso incurável de polianismo político, ou, obviamente, fruto de puro fundamentalismo doutrinário neoliberal – só parece passível de compreensão na medida em que o justificante tenha ele próprio acesso e interesse material imediato e míope no escancarado porém exclusivo clube de negociatas instituído pelo "governo" (o que, convenhamos, não é coisa que se aplique à realidade econômica da maioria esmagadora dos mortais, inclusive muitos dos eventuais centristas ou direitistas mais ou menos empedernidos na justificação do golpe).
Ou seja: a subversão dos marcos institucionais e o derretimento do pouco que restava da credibilidade da Lei e seus operadores não se restringe ao jogo da chamada política oficial (onde já seria suficientemente grave). Não. Os belos exemplos de comportamento público proporcionados dia a dia justamente por aqueles que mais deveriam zelar por sua "autoridade" atingem em cheio as bases de civilidade, ou "cordialidade" que ainda teimavam, e às vezes ainda teimam em tornar a vida cotidiana minimamente suportável e viável nesta sociedade. Tanto que é difícil dizer o que mais contribui para o esgarçamento do tecido social e o crescimento da violência e insegurança sociais, num contexto que a tradicional e portentosa desigualdade brasileira desde sempre já tornou suficientemente problemático: se o vôo de galinha da economia nacional – pilotada pelos "austeros" condutores da tecnocracia planaltina – ou o show de cafajestagem explícita e vale-tudo com que somos brindados exaustivamente pela novela tediosa e interminável das denúncias e "investigações", cevadas pelo pagode de uma nota só da cobertura "política" midiática e seus imparciais artífices.
Mas o que torna cada vez mais exíguo o espaço reservado a uma tentativa de posicionamento ao "centro" – para além do naufrágio das instituições e o desprezo crescente de qualquer coisa que pudesse ainda sugerir as simples idéias de equilíbrio ou tolerância – é que o rolo compressor de aniquilamento de direitos e do que seja lá que ainda possa ser considerado de natureza Pública nesse país, repele forçosamente quaisquer forças políticas e sociais atuantes para os extremos do espectro ideológico e estratégico.
Não há meio termo que resista diante do verdadeiro centrifuguismo imposto não somente via radicalismos irresponsavelmente insuflados, há anos, pelo moralismo golpista, mas agora também estimulado pela política de terra arrasada patrocinada ininterruptamente pelo "governo" e suas bases, com as devidas colaborações marginais dos oportunistas da hora (igualmente marginais em sua representatividade e origens sociais).
Não está constrangedoramente exposto apenas o Rei, com sua roupa "nova". Mas também toda a corte e os inumeráveis penetras e cronistas bajuladores do baile.
Não há espaço, pois, para nenhum centrismo, eqüidistância ou "terceira-via", nem muito menos para pseudo-outsiders, com sua conversa fiada de idoneidade moral, competência técnica, antipartidarismo e suposto apoliticismo.
Só para oportunismos da mais variada espécie.

domingo, 27 de agosto de 2017

Metástase e oportunismos

Como entender os solavancos a que somos submetidos dia após dia pela nova coalizão usurpadora e sua agenda?
Diante de tamanhos absurdos e temeridades – desculpe, não dá pra evitar... – fica difícil não começar a acreditar em teorias conspiratórias e achar que tudo faz parte de um mesmo pacote de verdadeiros crimes contra o interesse popular devidamente premeditados e inseridos, de saída, nas origens do projeto golpista consumado há um ano (mas possivelmente preparado, ou cultivado há mais tempo).
Pode ser.
Mas além do habitual desprezo que nutro por esse tipo de construção narrativa, e da incorrigível desconfiança com relação a grandes apostas na consistência e racionalidade de processos históricos como esse, atribuir tamanha sistematicidade e previsibilidade aos golpistas e a seus atos me soa como uma indevida atribuição de competência e antevisão ao que segue me parecendo muito mais uma conjunção trágica de oportunismos míopes de uns com complacência criminosa de outros, completando-se o quadro sinistro com apoios inconsequentes de miríades de setores sociais inseguros e ressentidos, movidos por ansiedades imediatistas, temores ou preconceitos tacanhos.
Na verdade, acho que a melhor metáfora para a situação atual é clínica: a sociedade brasileira, vitimada que foi, inicialmente, em seu centro nervoso de comando por um autêntico tumor maligno – o golpe – é hoje um corpo acometido de verdadeira metástase institucional, e que, de tão debilitado e desprotegido em suas usuais defesas imunológicas, tornou-se presa fácil de todo tipo de infecção oportunista.
Assim, creio, se pode ter um melhor entendimento ou imaginação da sequência ininterrupta de novos horrores com que temos de conviver há meses. Das "reformas" mal-ajambradas e à toque de caixa, ao desmonte e à rapinagem ansiosa do patrimônio público – travestidos eufemisticamente de "privatizações" –, além do escancaro ao assalto ambiental e à exploração predatória de reservas minerais estratégicas, por exemplo.
O fato é que o sôfrego balcão de negociatas instituído pela nova Situação consegue superar qualquer previsão pessimista em matéria de dano incalculável ao país e a seu futuro.
E pensar que todo o caminho para esse inferno foi pavimentado com as intenções, até mesmo boas, dos moralistas de ocasião e sua legião de incautos – ou simplesmente hipócritas – seguidores, que diziam pretender "passar o país a limpo" (pois não é que o estão "limpando" mesmo?!).
Seja como for, o quadro clínico deprimente está aí consolidado. De modos que, aparentemente, nem mesmo uma tardia remoção do tumor original parece ser mais suficiente para a regeneração do organismo comprometido.
As únicas esperanças parecem resistir num segundo, ou terceiro diagnósticos (e confesso que adoraria estar completamente enganado). Ou na ação, à essa hora milagrosa, de algum tipo de anticorpo que ainda pudesse se manifestar, a partir, quem sabe, do que resta de saúde neste gigantesco enfermo.
O certo é que não parece haver "equipe médica" ou "tecnologia de ponta" (administrativa, econômica ou institucional) capaz de, sozinha, operar o milagre. Se o paciente de algum modo não reage...

domingo, 13 de agosto de 2017

O bode (rides again)

Como era de se esperar, tudo leva a crer que a introdução dessa excrescência apelidada de "distritão" na atual reforma política – ao que parece, somente para as próximas eleições (a partir de 2022 utilizaríamos uma versão tupiniquim de sistema misto alemão) – não passa de picaretagem casuística da grossa. Mas também não se pode excluir a possibilidade de se tratar, mais uma vez, da velha artimanha de se colocar o bode na sala. Na republiqueta dos neo-golpistas tudo é possível.
Para quem ainda não sabe, o “distritão” seria aquele sistema em que o eleitor vota em candidatos individuais para as Câmaras e Assembleias, e se elegem os mais votados individualmente. Ponto. Ao contrário do que ocorre hoje, no sistema proporcional de lista aberta, porém, neste novo formato os candidatos disputam e se elegem independentemente de seus partidos e, em grande medida, contra eles. Ou seja: depois de se discutir durante anos diversas outras formas de reforma das nossas eleições o Congresso pode estar se preparando para ratificar justamente a provavelmente pior delas. Sinal dos tempos. 
Seja como for, há muito estou convencido de que reforma política é como aquele velho clímax de filme de aventura em que se está diante de um evento ou passagem que só ocorre ou se abre de tempos em tempos, de acordo com a incidência dos raios do sol em um determinado ângulo, e na estação do ano pré-determinada, ou conforme conjunções astrais muito especiais, e que tentar levá-la adiante fora de tais momentos é inviável ou muito perigoso.
O momento atual, então, que talvez como nenhum outro, há muito tempo, pode nos levar a sonhar ardentemente como uma reforma política salvadora, e que nos livre do interminável filme de horror em que fomos inseridos há alguns anos, é certamente um dos menos propícios e recomendáveis para se tentar algo do gênero.
Primeiro, porque de um ponto de vista puramente técnico – se é que tal coisa é possível em matéria de política – poucas tarefas são mais ambiciosas, complicadas e arriscadas do que tentar reformar um sistema de representação. São tantos os fatores a se levar em conta, tantos objetivos possivelmente contraditórios que se tem de conciliar e articular, e tão controverso o capital de conhecimento histórico e teórico que se necessita mobilizar para não se correr o risco de reinventar rodas inadequadas, ou simplesmente quadradas, que não raro a necessária prudência do especialista acaba se convertendo em desânimo, inação e desistência.
Mas é no próprio terreno da política real que se encontram os maiores obstáculos a uma reforma política efetiva e produtiva. E nem sempre é de se lamentar.
Os obstáculos da política à sua auto-reforma, ou ao menos do seu crucial sistema de representação, se referem, obviamente, ao fato de que é muito difícil se chegar a algum consenso sobre o que e como reformar, dada a mais do que provável diversidade e antagonismo de interesses no desenho das regras do sistema, em função da pluralidade e variedade de formas e condições de disputa política concreta na sociedade. Quanto mais fragmentada, diversificada e desigual a realidade social, econômica, ideológica e regional a ser representada pelo sistema político, mais difícil o acordo em torno de regras novas que certamente poderão abrir novas perspectivas de oportunidades para certos atores do jogo, ao mesmo tempo em que podem representar grandes ameaças aos recursos e posições de outros. Partindo do pressuposto razoável de que nenhum ator político minimamente racional vai apoiar mudanças de regras que possam vir a prejudicá-lo em futuro mais ou menos imediato – ou que em caso de séria dúvida e considerável incerteza tenda a trocar o conhecido pelo incógnito – é de se imaginar que em contexto de grande diversidade e pluralidade de forças políticas, dificilmente se poderá superar impasses e vetos a qualquer reforma digna desse nome, sem a intervenção de algum ator, ou atores estratégicos – como, eventualmente, um líder de Executivo popular, à frente de maiorias partidárias fortes – que possam articular e negociar termos e apoios em direção a um projeto minimamente consensual e majoritário. Não precisamos refletir muito para perceber que se a primeira condição problemática – a da fragmentação e do pluralismo – se encontra fortemente presente em nosso país, o segundo pré-requisito, o de solução – dependente da agência de uma forte liderança política e institucional popular – parece ao menos um "pouco" prejudicado no contexto atual.
Digo, contudo, que nem sempre é de se lamentar tal tipo de impasse porque, assim como tenho, tal como muitos colegas, as minhas preferências em matéria de reforma, tenho ainda mais simpatia por várias formas de pluralismo, e por equilíbrios relativos de poder em regimes razoavelmente democráticos: daqueles que dificultam ações apressadas, temerárias (com duplo sentido, por favor!) e danos irremediáveis. Também desconfio muito dos "rolos compressores", das "administrações extraordinárias", de fanatismos reformistas ou revolucionários, de vários matizes, e simplesmente abomino "regimes de exceção", etc. E na tormenta que estamos atravessando, com esses "timoneiros" a bordo, melhor nem pensar por quais rotas seremos levados a navegar.
Ou seja: certamente acho que nosso sistema eleitoral precisa de reformas e, se possível, rapidamente (mesmo admitindo, porém, que não existe reforma ou panaceia institucional capaz de, por si só, nos livrar da crise atual; como diz o velho ditado, "the hole is far...").
Mas de qualquer maneira, se for para deixar o bode na sala, melhor nem deixar ele entrar.

quarta-feira, 19 de julho de 2017

De contrastes e contragolpes


"Such a parcel of rogues in a nation...", 
(Robert Burns, 1791)

Não vou me alongar agora sobre a já fartamente prevista e denunciada consumação da perseguição sistemática contra Lula pelo arremedo de Torquemada de Curitiba. O argumento, o roteiro e o desenrolar desse enredo vergonhoso já são bem conhecidos e quem quiser continuar acreditando que isso faz parte de um simples processo normal de moralização pública que faça bom proveito. Sempre há ingenuidade e justificativa para tudo e para todo o tipo de preconceito e autoindulgência nesse mundo.
Prefiro me dedicar a coisas mais graves (afinal, essa aberração jurídica certamente terá muitos desdobramentos ainda, antes que o seu objetivo final, a inviabilização da candidatura de Lula nas próximas eleições, possa ser garantido)
Retomando o fio da discussão sobre a "reforma trabalhista", porém, creio que é difícil saber o que é mais desastroso: o conteúdo aparentemente tosco e mal-ajambrado do conjunto de itens que compõem o monstrengo, ou a igualmente aparente coesão do bloco político heteróclito que impôs ao país essa arapuca. 
No que se refere ao conteúdo da reforma, à parte o claro e principal direcionamento no sentido de eliminar qualquer forma de proteção ao trabalhador - seja com apoio sindical ou por intervenção da Justiça -, em sua óbvia e extremamente desigual posição de barganha frente ao empregador, chamam a atenção os penduricalhos que parecem atender a todo tipo de interesse "empresarial" ultra-específico e suspeito. Na verdade, só um objetivo geral parece saltar aos olhos: oficializar, legalizar e, portanto, estender abusos de poder e informalidades já fartamente praticadas no "mercado" e excluir qualquer forma de mediação do Poder Público que não seja em ratificação ao poder concreto, informal e arbitrário dos patrões. Ou seja: se antes a grande maioria de nós já vivia, de fato, sob uma forma particularmente perversa de "capitalismo selvagem", agora tudo indica que muitos mais viveremos, de direito, sob alguma forma de exploração e promoção ainda maior de exclusão e desigualdade, cujo conceito ainda me escapa (ou, na verdade, é tão antigo, tão digno dos tempos de outros "modos de produção", que já o havia esquecido). Não há mais nem como soar cômicas as manifestas apostas - não se sabe se efetivamente ingênuas ou cínicas - que se ouve aqui e acolá acerca dos possíveis efeitos virtuosos dessa "reforma" numa futura geração de renda e empregos, e na retomada do crescimento (será? Talvez daqui a décadas, quando finalmente toda a economia nacional se adaptar a tais mecanismos "meritocráticos" de busca da eficiência e produtividade, e nos legar seus tão ansiosamente aguardados benefícios coletivos de modernização e bem-estar - comprometidas, é claro, apenas algumas gerações dos brasileiros mais vulneráveis, sacrificados no meio do caminho em prol de fins tão nobres....). 
Já no que diz respeito ao bloco político, há várias razões que poderiam nos ajudar a explicar a sua relativa força e eficácia pra-lamentar. Algumas são perfeitamente corriqueiras e inerentes ao sistema: como a fidelidade das bancadas hoje majoritárias a suas diversas e economicamente poderosas clientelas, assim como a relativa consistência programática das primeiras - consistência mais ou menos ideológica ou fisiológica, não faz tanta diferença -, assim como sua habitual subserviência diante da caneta afiada de um Executivo desprovido de pruridos protocolares, o principal responsável, afinal, pelo controle e avanço destrutivo da atual agenda. Outras, de fato, exalam aromas ainda menos agradáveis, relativos às moedas de troca literalmente mobilizadas para garantir senão as próprias reformas, ao menos os requisitos de poder necessários à continuidade das mesmas - como, aliás, o ilustram os transes patéticos por que passou a Comissão de Constituição e Justiça da Câmara na semana passada (mas que importa, afinal, diante de outros fatos realmente graves, como "pedaladas fiscais"?).
Isto nos leva, porém, ao ponto crucial: o dos contrastes entre a pusilanimidade, a canastrice e a sofreguidão dos líderes políticos do golpe e seus desdobramentos, assim como as tensões e rivalidades crescentes entre eles, de um lado, e a coerência de motivações e hegemonia política da agenda que promovem e representam, de outro. 
Sim: o golpe é representativo.
Ele não somente representa interesses bem delineados e específicos, como se move cada vez mais desembaraçadamente graças a omissões conhecidas e ao consentimento tácito - quando não o apoio entusiástico - de certos setores, maiores ou menores, de parcelas da chamada "opinião pública" (sem esquecer, é claro, a grande maioria da "opinião publicada"). 
Como em todo processo dessa natureza, contudo, é claro que tal unidade é mais aparente do que real, mais superficial do que profunda, mais contingente e efêmera do que duradoura. O que em geral lhe garante maior sobrevida e objetividade política, porém, não são outros fatores senão, de um lado, uma mistura de oportunismo com luta desesperada por sobrevivência - em contexto cada vez mais hobbesiano e anárquico de grande incerteza e miopia imediatista - e, de outro, a simplória e patologicamente oportuna eleição de algum inimigo comum, ou bode expiatório, ou ainda, eventualmente, a entronização de algum salvador da pátria ou crença miraculosa em algum princípio ou projeto, que possam atrair uma mobilização mais ou menos cega e irresponsável, no afã de se fugir a qualquer custo e o mais rapidamente possível do círculo vicioso das crises e da perda de referências ou apoios na realidade.
Certamente a grande maioria do povo brasileiro não se converteu subitamente às promessas metafísicas do neoliberalismo tupiniquim, nem igualmente dirige suas preces ao sucesso e à consagração da ilustríssima administração Temer, ou de um eventual arremedo de gabinete parlamentarista liderado pelo Democratas ou pelo Partido que ainda teima em se chamar da Social-Democracia Brasileira. 
Ainda assim, são estes e suas altas clientelas os principais beneficiários imediatos da reação em curso e das resultantes imediatas do transe a que há anos se submeteu nossa sociedade, ao revolver o lodo do seus reservatórios de temores e preconceitos, seu "volume morto", há tanto tempo esquecido e estagnado.
Sim. Eles dão as cartas.
Por enquanto.
Mas assim como a agenda do golpe se autonomiza - e hoje, indubitavelmente, já pode até prescindir de prepostos como Temer, Maia e cia. ilimitada - a pauta do contragolpe vai necessariamente adquirindo seus contornos inevitáveis e urgentes. E só o tempo poderá dizer como e quando o "legado" golpista em construção será efetivamente confrontado e superado.
Até lá, somente uma certeza: dificilmente conheceremos algo que possa ser efetivamente chamado de paz social ou estabilidade.

sábado, 17 de junho de 2017

"Depois que o tá ruim chegou, nunca mais melhorou..." (ou, bem que queria soar mais otimista no feriado, mas tá difícil)

Tá ruim e tudo indica que ainda vai piorar muito, antes que melhore.
Por quê?
Simplesmente porque independentemente do desfecho mais próximo da crise imediatamente atual, e que envolve diretamente o presidente da nova republiqueta, o golpe consumado no ano passado é muito maior, mais permanente e consistente do que seu ato fundacional – o impeachment de Dilma –, como também vai além do desempenho dos vários canastrões e picaretas que o promovem no proscênio da farsa tragicômica – mais trágica do que cômica – que domina esse país nos últimos, três, quatro, cinco ou, para ser mais exato, doze anos (desde que explodiu o famigerado caso do "mensalão").
Ele é maior porque ultrapassa em muito os marcos institucionais, que vêm sendo sistematicamente destroçados e sacrificados em seu altar de moralização hipócrita e seletiva – a Justiça Eleitoral é a mais recente vítima (auto) imolada do massacre –, maior porque mobiliza setores poderosos da sociedade brasileira, com efetivo apoio, mais ou menos inconsequente, de parcelas maiores, não tão poderosas, porém significativas, da mesma, e, por último, mas não menos importante, também porque se consubstancia, de um lado, numa pauta de "reformas" infelizes que, por assim dizer, se autonomizou, e, de outro, numa tentativa desesperada de controle da anarquia judicialesca, ambas se constituindo nos únicos e fundamentais pontos de convergência das legiões golpistas.
De modos que, seja qual for o destino mais ou menos imediato do "governo" Temer, tal pauta e tal desespero seguirão de um modo ou de outro em suas corridas desabaladas rumo à promoção do caos social e da inviabilização de qualquer estabilização política e recuperação econômica dignas desses nomes, e impedindo, particularmente, o retorno do que quer que que possa ser chamado sem constrangimento de ordem democrática neste país, por longo tempo.
É possível vaticinar sobre os vários desdobramentos possíveis da crise atual: continuidade zumbi do "governo" Temer (não necessariamente só até 2019), interrupção do mesmo e sua substituição por sucedâneo eleito indiretamente, ou, até mesmo, improvavelmente, por novo presidente eleito diretamente, etc.
Seja como for, contudo, isto de modo algum modificará o sentido profundo e principal do que nos aguarda: inviabilidade, por longo tempo, de um novo governo autenticamente popular, democrático, legítimo e, ao mesmo tempo, institucionalmente capaz de levar adiante uma agenda que não somente reverta as excrescências do legado Temer – tanto o já acumulado quanto o que ainda está por vir – mas recoloque o Brasil no devido rumo do crescimento sustentado com a imprescindível redistribuição da renda e combate à desigualdade. Em suma: efetivos governos mais à esquerda, únicos capazes de enfrentar os maiores desafios que há muito esse país impõe a seu povo e a seus dirigentes (quando os há).
Isso não deve ser interpretado como descrença ou desincentivo à mobilização popular ou à presente luta por "diretas já". Embora não tenha grandes esperanças com relação à tal empreitada, entendo, porém, que, por várias razões, ainda assim é uma opção melhor do que a continuidade mal-ajambrada do "governo" Temer, ou sua substituição por um mandatário tampão, eleito indiretamente por estas maiorias pra-lamentares que estão aí.
O que não deve é restar dúvidas quanto ao fundamental: podemos sim, ter governos mais ou menos híbridos de neoliberalismo de fancaria com puro reacionarismo oportunista – como o que temos agora, e possivelmente continuaremos a ter no futuro mais imediato.
O que não poderemos ter assim, ao mesmo tempo, é democracia e ordem.
E não porque tais termos sejam intrínseca ou inevitável e mutuamente excludentes. Infelizmente, não. Regimes democráticos mais estáveis, e em condições socioeconômicas mais favoráveis, podem até se dar ao luxo de eventualmente flertar por algum tempo com retrocessos em suas políticas públicas e apostas pra lá de duvidosas no poder demiúrgico dos mercados.
Mas jamais uma republiqueta de bacharéis casuístas, de escravocratas e golpistas, campeã mundial de desigualdade, irresponsabilidade e hipocrisia.