Retomo aqui, em novo formato, meu velho espaço de troca de idéias sobre política, Brasil, futebol, música e (quase) tudo o mais que me mobiliza. Para leigos, bem informados, colegas, alunos, amigos e amigas em geral.
sábado, 12 de maio de 2018
quarta-feira, 28 de março de 2018
As eleições do medo (ou, o medo das eleições e o voto avestruz)
Não faz assim tanto tempo e se comemorava, entre nós,
a vitória da esperança sobre o medo.
Hoje nada parece capaz de impedir, nas próximas
eleições, o trágico triunfo oposto: o do medo sobre a esperança (e também sobre
qualquer racionalidade política embasada na História desse país, e de algures,
ou em diagnóstico minimamente consistente sobre nossa realidade atual).
Não é para menos.
Aquilo que muitos ainda teimavam em conceber como desvio
mais ou menos circunscrito ou passageiro – ou seja: a violência constituinte de
nossa sociedade e o caráter rigorosamente hobbesiano do “Estado de Natureza”
espalhado e renitentemente reproduzido por tantas áreas de nosso território –
agora se apresenta cada vez mais desembaraçadamente como algo muito mais
profundamente enraizado, pervasivo e duradouro. E em tal contexto, não pode
mesmo surpreender o apelo de promessas drásticas e simplistas, como se os
problemas fossem fáceis de resolver, e algumas das soluções propostas para eles
não embutissem riscos e problemas ainda maiores.
Seria adequado, pois, qualificar esse tipo de anseio,
ou aflição, em busca de salvação imediata, e a qualquer preço, como esperança?
Afinal, quem entre nós, brasileiros, pode hoje se dar
ao luxo de cultivar qualquer otimismo digno desse nome? Quem pode estar seguro
de suas boas razões para escolher, consistentemente, uma das opções que se
apresentem como candidaturas ou plataformas, no sentido de nos tirar desse poço
de areia movediça em que fomos lançados? Quem pode sequer ter confiança de que
uma vez conhecido o veredicto das urnas, isso nos permitirá contar, a partir de
2019, com algo que possa ser chamado de governo efetivo, dotado de meios e
programas conseqüentes, e também capaz de se sobrepor a eventuais e previsíveis
tentativas de contestação de resultados eleitorais, sabotagens parlamentares,
judicialescas, ou midiáticas, ou, pura e simplesmente, novos e inusitados
golpes?
É claro que estamos diante dos efeitos sumamente
perversos – e cansativamente previstos e denunciados por muitos, com triste
antecedência – do processo de desestabilização política e institucional posto
sistematicamente em movimento no Brasil, com as conhecidas cumplicidades e
apoios mais ou menos conscientes, desde que se abriu a famosa caixa de Pandora
das novas cruzadas moralistas, há pouco mais de uma década.
Mas agora é tarde. A jovem princesa – também conhecida
como "democracia" – é morta (tudo bem; vamos dar uma chance aos otimistas
de plantão: digamos então que ela ainda não morreu; se encontra em coma, em
estado vegetativo, e respirando por aparelhos – resta saber quem controla esses
últimos....). E se confesso não enxergar saída fora das eleições, tampouco me
convenço de que mesmo na melhor das hipóteses – ou seja, a vitória da melhor
escolha possível – haveremos de ter condições institucionais de ver no futuro
imediato as presumíveis conseqüências positivas de um tal resultado.
De qualquer modo, nada parece ser capaz de deter o movimento
inegavelmente espasmódico e ressentido com que de um modo ou de outro, se
caracterizará um provável e significativo contingente de votos, impulsivamente condenado
a apostar em ofertas eleitorais mais ou menos imprevisíveis, radicais ou
temerárias (com duplo sentido, por favor). E isso numa demonstração muito menos
de qualquer expectativa positiva mais sólida ou palpável – com relação a esta
ou aquela escolha –, do que, muito mais, uma pura e simples manifestação inútil
de descrença raivosa, na ausência de qualquer perspectiva positiva.
Em suma: diante do triste espetáculo que nos foi
legado pelos aprendizes de feiticeiro do golpe, há grande chance de assistirmos
em outubro o momento triunfal do que poderíamos chamar de voto avestruz: diante
de um cenário tão desalentador, enterra tua cabeça no chão e vota.
quarta-feira, 31 de janeiro de 2018
O candidato dos sonhos (ou, mais um capítulo da mal-afamada série, "an establishment in search of an outsider")
"Anything
goes..."
(Cole
Porter)
A enrascada em que os apoiadores do golpe de 2016, em
especial os moderados, se meteram pode ser compreendida melhor, à medida que
avançam as especulações sobre candidaturas à presidência da República para o
pleito deste ano, em torno do seguinte problema: o candidato dos sonhos das
oligarquias tem de ser alguém totalmente palatável ao chamado establishment,
e, ao mesmo tempo, um outsider da política.
Ou seja: alguém que possa tranqüilizar as oligarquias
e seus vassalos nos setores mais conservadores e reacionários das classes
médias e inferiores, mas que pareça não estar contaminado pelo jogo político
institucional – exatamente a arena onde hoje as oligarquias exercitam sem peias
(que não a própria competição interna a elas) o seu poder predatório.
Daí o nervosismo à cada nova pesquisa de intenção de
voto – com ou sem Lula, com essa ou aquela plêiade de concorrentes –, e o
assanhamento e a angústia em torno de nomes "novos", como os de
"celebridades", ou recém-entronizados paladinos da justiça, ou ainda
tecnocratas supostamente acima de qualquer suspeita (partidária, é claro).
Tanto faz.
O que importa é achar logo algum "poste" que
se coloque competitivamente – e principalmente graças à sua inconsistência
política e partidária – num ponto central mais ou menos eqüidistante das
extremas (ou nem tão extremas assim), à esquerda e à direita. Que, como já
dissemos antes, tendem se não a propriamente seduzir
"ideologicamente" as maiores parcelas do eleitorado, e, talvez, a
liderar as futuras pesquisas de intenção de voto, certamente deverão seguir polarizando
o debate, tornando ainda mais inconsistente qualquer tentativa de articulação
de um discurso de "centro" – num contexto geral já inteiramente
radicalizado (e sem nenhuma perspectiva séria de descompressão a curto ou médio
prazo). E com tudo tendendo a fazer do próximo pleito o mais incerto e imprevisível
desde 1989.
O dilema traduz, em primeiro lugar, a versão
tupiniquim da tendência política e ideológica global que, em outros contextos
já foi chamada (creio que impropriamente) de "populismo
plutocrático": conversa fiada moralista e pseudo-econômica para engrupir e
mobilizar levas de neófitos, ressentidos e preconceituosos, mas igualmente
perfeita para alavancar policies e
"reformas" talhadas de encomenda para rentistas e outros espertalhões
(às custas dos mesmos ressentidos e preconceituosos, inclusive).
Aqui em Pindorama acredito que a melhor definição seja
outra: antipoliticismo udenista primário. Quer dizer, indignação seletiva,
obsessiva e praticamente exclusiva com corrupção no (e do) setor público, desprezo
ignorante da política, dos partidos e dos políticos profissionais – mas acima
de tudo do povo que os elege –, crença messiânica na pura vontade e anseio
infanto-juvenil por salvadores da pátria dotados do inefável pedigree moral e
técnico-elitista para resolver autoritária e cientificamente os problemas
nacionais. Em suma: uma receita infalível para escolhas equivocadas e
insatisfação garantida (e sem o seu dinheiro de volta!).
Mas não nos iludamos. Para além da arenga moralista,
autoritária, eventualmente pseudo-liberal e moderninha que anseia pelo
candidato puro-sangue se esconde a mesma fonte e beneficiário final: as
poderosas minorias que, aqui ou alhures, tem interesse na manutenção indefinida
do status quo social, ou pior: anseiam por retrocessos lucrativos e
imediatos.
Por outro lado, o traumático passado recente, o
elevadíssimo grau de imprevisibilidade institucional produzido a doses maciças de
oportunismo político míope, em meio a anarquia judicialesca fatal – cujos
capítulos mais recentes tivemos o desprazer de testemunhar no último 24 de
janeiro, mas que vem se desenrolando entre nós, ininterruptamente, há muitos
anos – inevitavelmente cobram o seu preço, atingindo, de um modo de outro, a
credibilidade de todas as instituições. Cumprindo-se enfim a profecia construída
por décadas de moralismo e denuncismo midiático irresponsável: a longa noite em
que todos os gatos – leia-se, as instituições, os partidos e agentes políticos
– se tornam pardos, e não reste mais nada à turba desencantada e desencontrada
do que ansiar pelo milagre e seu correspondente messias.
Mas calma... Nem tudo está perdido (nos dirão
sofregamente os arautos e especuladores do "et plus ça change...", do alto de seus think tanks, em
seus editoriais ou artigos de opinião acolhidos nas velhas tribunas da
"ordem" e do "progresso"...).
Afinal, se não houver outro jeito, sempre se pode
contar, menos entusiasmadamente, com os quadros mais confiáveis da velha
política oligárquica. Como, é claro, em primeiríssimo lugar, os tucanos: sempre
tão modernos, elegantes e impolutos – mesmo quando flagrados em evidente
desconforto digestivo no corpo-a-corpo das campanhas, ou envoltos em enredos
nebulosos, de fatais bolinhas de papel, surrupio de merenda escolar, ou
concorrências públicas marotas, a helicópteros que desaparecem na calada da
noite (ou melhor dizendo: surgindo esporadicamente e submergindo rapidamente
nos labirintos da cobertura jornalística imparcial que pontifica em nosso
país).
Ou ainda melhor (ou pior): quem sabe até o governo
temerário não pode ele mesmo parir o seu próprio poste de confiança?
Afinal, chegamos a tal ponto de desfaçatez e vale-tudo
que até algum campeão nacional de impopularidade tem o direito de sonhar: por
que não eu?
segunda-feira, 22 de janeiro de 2018
Lula, o Brasil e o espelho
Durante muito
tempo, mais precisamente até 2002, acreditei que Luís Inácio Lula da Silva
nunca seria eleito presidente do Brasil. Com base nas três disputas
presidenciais que ele havia perdido até então, minha teoria era bastante
simples: Lula jamais seria eleito porque ele era bom demais para isso. Demais
para que uma boa parte do Brasil pudesse suportar.
Ou seja: Lula
representa (e sempre representará) um exemplo de sucesso.
Um cara que
veio de uma das regiões mais pobres do país, superou todo o tipo de
dificuldade, mal teve oportunidade de estudar, mas aprendeu uma profissão e
construiu com esforço uma carreira, tornou-se líder sindical de uma categoria
profissional organizada e numerosa, em setor crítico da indústria nacional,
enfrentou pacifica e pragmaticamente uma ditadura em defesa dos direitos e
interesses dos seus companheiros trabalhadores, e, por último, mas não menos
importante, fundou e liderou o maior partido de massas da história política
brasileira. Em suma: o homem já tinha um portfólio invejável quando se tornou
nacionalmente conhecido como o principal desafiador dos poderosos candidatos do
establishment nas três primeiras eleições presidenciais pós-ditadura.
Ora: quem
nesse país possui trajetória comparável? Quantos se alçaram comparativamente
mais alto, ou foram mais longe, pelo próprio mérito e esforço (como gostam de
repetir os hipercorretos importadores de pseudovalores estrangeiros e
bajuladores de "celebridades")?
Quem pode se
mirar nessa história – nesse exemplo, ou espelho – e não se admirar (ou se
incomodar)?
Num país marcado
até a medula pela escravidão, tão cruel e mesquinho com a massa de despossuídos
e desprivilegiados, e ao mesmo tempo tão pusilânime e condescendente com
privilégios dos bem-nascidos, dos apaniguados, apadrinhados,
filhinhos-de-papai, etc., quem consegue, de fato, se comparar? Sejamos francos:
perto de uma trajetória vitoriosa como a de Lula, somos tantos de nós, na
melhor das hipóteses, uma legião de amadores em matéria de capacidade de autorrealização
pessoal, ou promoção da própria mobilidade social ascensional.
Mas eis então
que esse arrogante imigrante nordestino, sem formação superior, cometia a
suprema ousadia de querer nos governar?! E o que é pior: prometendo trabalhar no
governo justamente para combater a miséria e promover a inclusão econômica e
social de milhões como ele?!
Já não bastava
ter de encarar o constrangimento de uma comparação com tais realizações
pessoais? (ainda mais para algum filho das classes abastadas, ou médias – e que
apesar de choramingar e invejar os ricos, mal se dá conta de estar no topo da
pirâmide social desse país campeão mundial de desigualdade –, inclusive com
todas as oportunidades de estudar em bons colégios e universidades?).
E ainda se tem
de aturar o sujeito e seu partido no poder por mais de uma década!? Com essas
políticas "populistas" de renda mínima, microcrédito, acesso à
energia elétrica e habitação popular? Pior: bolsas universitárias, abertura de
novas universidades públicas, cotas para minorias?!
E com o
aplauso de tantos Chefes de Estado, analistas e interlocutores internacionais?!
Chega! É dose!
Em que mundo estamos!? (Que se arranje logo um jeito de desqualificá-lo...
talvez algum deslize típico de ascendente social, ou... melhor! Algum sinal,
mesmo que torto ou fabricado, de ilicitude e desvio de conduta!! Perfeito!!)
Pois é.
A verdade,
portanto, é que eu estava redondamente enganado.
Primeiro,
porque Lula ganhou em 2002 (e, suprema impertinência, bisou em 2006 e, de
quebra ainda fez a sucessora). Mas também porque é óbvio que minha simplista
hipótese, ou melhor, intuição psicologética, era muito pobre e limitada para
dar conta da compreensão adequada de uma eleição presidencial nos dias de hoje.
E existem teorias muito mais interessantes e rentáveis para entender os
resultados de 2002, ou de quaisquer outros pleitos.
Seja como for, passados todos esses anos, e tantas
águas por baixo da ponte, e vendo agora o esforço ansioso e sistemático para
impedir, novamente, que esse mesmo teimoso e impertinente brasileiro sequer
tenha a chance de conquistar mais uma vitória – lembrando não só o que Lula fez
na presidência, mas também como o fez (e sem menosprezar as óbvias razões
maiores, de ordem programática e ideológica, que hoje se articulam contra seu
possível retorno) –, ainda assim não resisto a perguntar: que imagem mais ou
menos distorcida (ou talvez excessivamente fiel e implacável) é essa que certo
Brasil enxerga quando se mira nesse espelho?
sábado, 13 de janeiro de 2018
Do grau de investimento aos graus de esquizofrenia (ou, de um rebaixamento a outro)
Seria cômico se não fosse trágico: de acordo com urgente
cobertura jornalística da política nacional pelos nossos veneráveis veículos de
"opinião", não apenas causa mal-estar junto aos nossos olímpicos
gestores e à refinada platéia que os adula e inspira, a notícia do rebaixamento
do grau de investimento do Brasil, por um desses oráculos inquestionáveis do
mercado financeiro global, como também gera imediata troca de gentilezas entre
ansiosos candidatos a campeões eleitorais do "governo" e de sua pauta
"reformista" para as próximas eleições presidenciais. Afinal, segundo
o novo consenso geral, foi por conta do adiamento da tal reforma da previdência
que levamos o pito internacional. E aí sobra culpa e reclamação para todo lado
da ínclita coalizão.
Como mudou este país!
Quem, em tempos idos, sequer consideraria a hipótese
de se aventurar como candidato a presidente de um governo que ostenta recordes
em matéria de baixos índices de popularidade, acossado por denúncias e incapaz
sequer de nomear um ministro, ou ministra, sem causar arroubos de indignação
jurídica e incômodo generalizado? E quem levaria a sério tal, ou tais candidaturas?
Afinal, nem bem são passados trinta anos desde que o
mau desempenho de um governo (no caso, o de Sarney) simplesmente inviabilizou qualquer
candidatura governista, inclusive do então maior partido do país, e de uma
liderança como Ulysses Guimarães, ajudando a abrir caminho para a aventura
collorida (é verdade também que, depois da tragédia da não-posse de Tancredo,
os anos pesavam contra Ulysses; não foi à toa, aliás, que a maior parcela do
eleitorado de então não só preteriu nomes tradicionais da política, como também
preferiu, afinal, o candidato (supostamente outsider)
mais enérgico e jovial de todos; deu no que deu...).
Sem querer fazer aqui qualquer maldade – comparando,
por exemplo, a biografia e a estatura política de Ulysses com a dos ilustres
candidatos a candidato do "governo" – fico, porém, me perguntando: o
que leva a tamanho assanhamento eleitoral por parte de quadros tão
umbilicalmente comprometidos com administração tão impopular, e em defesa de um
ideário e de um programa rigorosamente antinacionais e antipopulares?
Descartando-se a hipótese possível, mas não provável,
de que outros objetivos políticos que não exatamente a manutenção do controle
sobre o Planalto guiem, na verdade, tais candidaturas, só resta uma (trágica)
explicação:
O atual rebaixamento do Brasil foi precedido por
outro, bem mais grave e difícil de recuperar.
De democracia emergente e objeto de estudo e admiração
de observadores externos, graças ao golpe consumado em 2016 e ao conseqüente
desmonte de tudo aquilo que, mal ou bem, representava o que havia de melhor em
matéria de welfare state tupiniquim,
fomos não somente subitamente rebaixados, no plano institucional, à condição de
republiqueta de bananas, como social e economicamente retrocedemos ao nível de
colônia de exploração neo-escravagista para negociatas ruinosas e especulação
desenfreada.
Daí não só o servilismo com que se recebe e se
reprocessa a notícia do grau de investimento em queda. Mas acima de tudo a
atenção esquizofrênica dada às ansiedades e rusgas de candidatos cuja relevância
política e partidária só encontra paralelo nas contribuições positivas que
certamente deixarão como legado histórico de sua passagem pelos altos escalões
dirigentes deste abençoado país.
Em suma: em matéria de rebaixamento, esse de agora é
fichinha (e vistos na perspectiva histórica adequada, até os 7x1 ficaram
baratos).
sábado, 30 de dezembro de 2017
Das muitas coisas de 2017 que não vão deixar saudades (ou, os não-populistas, ou ainda, os simplesmente impopulares)
Só agora li, numa dessas retrospectivas típicas de fim
de ano, o interessante artigo de Annalisa Merelli, publicado na Quartz no
início de 2017, sobre bolhas de opinião na rede (https://qz.com/866727/filter-bubbles-and-facebok-why-so-many-people-hate-the-liberal-elite/).
Assim como ela e muitos colegas, há muito cultivo uma
implicância intensa para com o "conceito" de "populismo".
Parafraseando meu querido mestre César Guimarães, diria que populista é todo
aquele meu rival, adversário político ou simples desafeto que independentemente
de maior ou menor consistência ideológica, e seja qual for sua espécie,
demonstra sempre a irritante e característica capacidade de ser popular. E o
que é pior: mais popular do que eu ou posições, partidos e candidatos de minha
preferência.
Pois eis que com a mesma inconsistência, e muitas
vezes traindo a mesma inveja e ressentimento de sempre – ou o mesmo oportunismo
pseudo-técnico habitual – o famigerado epíteto ressurgiu com força total por
toda a parte. Como de praxe, em discursos conservadores ou reacionários
suspeitos. Do mesmo modo, é claro, no jargão cada vez mais pobre, superficial, inconseqüente
e repetitivo de alguns jornalistas. Mas também seguiu freqüentando assiduamente
toda uma produção acadêmica que reputo, no mínimo, como teoricamente problemática.
E tem para todos os gostos: dos velhos e repisados
"populistas de esquerda" – com sua mania de propor medidas que
parecem adequadas para combater desigualdades; e que, pasmem!, muitas vezes, de
fato, funcionam; pelo menos eleitoralmente; sendo, obviamente, ainda capazes de
atrair muitos simpatizantes – aos "novos""populistas de
direita": por sua vez, pródigos na manipulação de temores e preconceitos primários,
e não raro desagradáveis, mas que não deixam de refletir (mesmo que perversamente)
problemas e tensões reais da vida social e econômica.
Não que os fenômenos políticos assim retratados não
mereçam atenção e um olhar crítico. É claro que não só merecem, como se impõem
a nosso exame. Afinal, o simples fato de algo ou alguém ser eventualmente
popular por si só não significa que necessariamente seja bom, benéfico ou
recomendável (não por acaso, a história da política e da cultura de massas está
cheia de exemplos nesse sentido). Sabemos o quão inconstantes e efêmeros podem
ser a aprovação e o gosto da maioria. Assim como a própria noção de maioria
pode ser enganosa, unidimensional e transitória.
Mas por isso mesmo o fato de algo ou alguém ser objeto
da aprovação ou da escolha de muitos não deixa de ser por si só relevante tanto
em termos econômicos e sociológicos quanto políticos. Ainda mais quando vivemos
em grandes economias de mercado e, especialmente, em regimes democráticos de
massa, em que a regra de maioria é o principal instrumento, não obviamente de
aferição do que é justo ou adequado, ou efetivamente representativo da
"verdadeira vontade popular", mas sim de decisão para processos
complexos de definição de regras comuns e alocação de poderes e recursos
públicos.
Na literatura histórica, econômica e política, no
entanto, o jargão possui longa trajetória, já tendo incorporado os mais
diversos sentidos e conteúdos. Há muito, porém, parece ter assumido contornos
quase sempre pejorativos e depreciativos.
Em primeiro lugar, é claro, em relação aos próprios
protagonistas políticos, ideológicos ou culturais que muitas vezes interpelam e
se valem das reservas de energia social, mal ou bem aproveitadas, de
ressentimentos profusamente reproduzidos na vida social contemporânea, e até de
demandas reais mais ou menos latentes e confusas para viabilizar seus projetos,
ambições ou fantasias. Com más ou boas intenções e resultados.
Mas não há dúvida de que o alvo definitivo da acusação
de "populismo", no fundo, é sempre o mesmo: o povo, ou melhor, a
maioria, suposta ou real, que consagra ou pode consagrar, apoiar, estimular as
posições e as lideranças "populistas".
Por isso, aliás, o fenômeno do "populismo" é
histórica e especificamente contemporâneo e democrático. Ele se encontra
indissoluvelmente atrelado a processos democráticos decisivos de formação e
manifestação de escolhas e preferências individuais agregadas ou coletivas de
grande magnitude e capacidade de incorporação popular – seja qual for a
substância ou consistência mais ou menos equívoca e transitória destas – e, é
claro, também ao aspecto competitivo inerente aos meandros dos grandes
mercados, políticos, econômicos e ideológicos. O que obviamente implica o risco
e a efetivação de freqüentes derrotas particulares e ideologicamente
perspectivadas, à cada "escolha" ou "decisão" da massa
"populista".
Hoje, como de hábito, o "conceito" é
novamente manipulado, a torto e a direito, para se referir a fenômenos que
rigorosamente podem não ter nada em comum (exceto, obviamente, uma certa e
incômoda popularidade mais ou menos circunstancial ou relativa). Assim, por
exemplo, podem acabar no mesmo saco, de um lado, a defesa de policies (re)distributivas,
ou a tentativa de preservação de direitos políticos e sociais arduamente
adquiridos, mesmo que eventualmente problemáticos, e, de outro, a propagação de
libertarismos pseudo-meritocráticos a favor da atomização mais ou menos anômica
de indivíduos "livres" que assim, via automatismos de mercado, nos
conduzirão, finalmente, ao paraíso do crescimento por alocação espontânea,
ótima e natural de recursos, ou a um ideal de completa liberdade e auto-realização
individual, digna de um episódio do Discovery Channel sobre a lei do mais forte
e a dramática luta pela sobrevivência na selva.
Mas o mecanismo subjacente parece ser sempre o mesmo:
eu, o interlocutor que me valho do epíteto e com ele rotulo o objeto de meu desagrado
o faço não apenas no sentido da crítica, mas principalmente como modo de
expressar a minha superioridade ética ou intelectual – em geral, dá no mesmo –
em relação às razões ou motivos que conduzem as bases "populistas" a
apoiar e escolher suas lideranças, teses ou demais commodities. Pouco se me dá
se existem razões maiores e objetivas para tais "equívocos".
Afinal, o que me importa mais, realmente? Compreender
a realidade ou simplesmente reafirmar – em especial, para mim mesmo – a justeza
e o acerto das minhas convicções (que, eventual e infelizmente, acredito
relativamente minoritárias e em desvantagem competitiva diante de adversários
ou rivais "populistas")?
terça-feira, 5 de dezembro de 2017
Historinhas III (ou quebrando a cabeça em busca de um anti-Lula mais confiável)
Assim como a maioria dos
meus colegas, gosto de me divertir analisando pesquisas de intenção de voto.
Mas tem horas que fica cansativo.
A última pesquisa Datafolha
sobre a corrida presidencial para 2018, por exemplo: (http://www1.folha.uol.com.br/poder/2017/12/1940171-lula-lidera-e-bolsonaro-se-consolida-em-2-aponta-datafolha.shtml)
são tantas as simulações, com esses ou aqueles candidatos, que você bem pode se
perder (ou se entediar) em meio a tantos números, variáveis e tentativas de
interpretação.
Um aspecto, porém, chama
logo a atenção: é a sutil diferença entre as simulações, com esse ou aquele
conjunto, mas em que Lula lidera com maioria relativa ou (quase) absoluta de
intenção de votos. Ou seja: embora as diferenças de votos para o favorito nas
simulações sejam aparentemente pequenas, variando em torno de 34, 37 pontos,
isso pode fazer toda a diferença entre haver ou não um 2º Turno –
presumindo-se, é claro, que deixarão o petista concorrer e que as tendências
atuais do eleitorado se manterão daqui pra frente. De qualquer modo, é com base
nos dados atuais disponíveis que em grande parte têm de se basear os cálculos
eleitorais no presente mais imediato. Não apenas os dos partidos e eventuais
candidatos, é claro, mas também os dos grandes grupos e atores sociais com
poder de influência e igualmente grandes expectativas em relação ao jogo.
Aliás, não é por outra razão que a pesquisa busca sofregamente dar conta de
praticamente todos os cenários possíveis, como que a buscar ansiosamente uma
resposta às óbvias perguntas: quem pode bater Lula (se o Judiciário não o
abater)? E qual o custo? Ou seja: diante das várias alternativas, qual a
viabilidade das mais palatáveis (ou menos indigestas)?
Seja como for, algo que se
pode especular é justamente acerca das implicações de um cenário mais ou menos
pulverizado de candidaturas e o que isso pode significar em termos de
incerteza, riscos relativos e oportunidades. Quanto mais candidatos na
simulação, menores as chances de que Lula possa faturar já no 1º turno.
Teoricamente, uma boa notícia tanto para seus inimigos quanto para os
"amigos" da esquerda que, porventura, sonham ocupar o espaço aberto
com a crise do PT e as indefinições que ameaçam a nova candidatura do velho
líder petista. Por outro lado, a proliferação de candidaturas presidenciais,
além de ampliar o desgaste já grande do processo eleitoral em si, amplia ainda
mais o grau de incerteza da disputa (basta lembrar a campanha de 1989, com sua
miríade de candidatos e seu resultado pra lá de inesperado e não menos problemático).
Por isso mesmo, também não
seria pequeno o abalo, em matéria de incerteza, risco e imprevisibilidade caso
se confirme, mais cedo ou mais tarde – principalmente mais tarde – a exclusão
de Lula da disputa. Dada a diversidade social, regional e ideológica da base de
sustentação de sua candidatura – os atuais 34, 37% que se dizem inclinados a
votar nele, hoje – não é tão simples assim imaginar quais poderiam ser os novos
destinos desse contingente significativo de votos.
Não faltam bons motivos,
portanto, para fortes dúvidas estratégicas, para todos os lados.
Mas não gostaria mesmo é
de estar na pele dos membros da legião de "centristas", ou
"liberais", apoiadores mais ou menos entusiasmados ou discretos do impeachment, que se incomodam com a
dianteira de Lula, mas ao mesmo tempo se apavoram com a candidatura alternativa
mais bem colocada em segundo lugar. Nem vou entrar no mérito das
responsabilidades assumidas no passado frente aos riscos do presente e do
futuro (além de cair, como sempre, em ouvidos moucos, agora já é muito tarde).
Mas que parece uma típica sinuca de bico...
Não é pois à toa que
certos grupos golpistas já se movimentam, prévia e precavidamente, em direção à
própria mudança da forma de governo. Como era inevitável, segue seu curso
desestabilizador a dinâmica posta em movimento desde a última eleição
presidencial pelas engrenagens do golpismo, e ampliam-se exponencialmente os
riscos e as incertezas para todos os atores do jogo. Inclusive os mais bem
aparelhados para surfar na atual e interminável temporada de caça ao butim
público e (re)privatização do Estado brasileiro.
Por essas e outras, de uma
coisa podemos estar certos/as: mantidas as coordenadas básicas do jogo e do
calendário, até a definição oficial das candidaturas, vamos ver e ouvir o diabo
em matéria de possíveis candidaturas a presidente, uma mais estapafúrdia do que
a outra.
E é claro que o risco maior é o de assim acabar se
elegendo justamente o "próprio"....
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