quinta-feira, 30 de novembro de 2017

A falácia e o arremate (ou fazendo o boi dormir)

Enquanto à Direita as forças oligárquicas seguem com seu cerco e sua investida subversiva ao Estado brasileiro e às suas instituições – pondo em prática suas políticas imediatistas de terra arrasada –, à Esquerda, diante de conjuntura tão deprimente, é compreensível que mentes mais ou menos atônitas lambam suas feridas e muitas vezes busquem consolo em velhas e requentadas utopias românticas, que muitas vezes rescendem a conhecidos "espontaneísmos", “basismos”, ou coisa parecida.
Longe de mim desprezar ou minimizar a importância das diversas iniciativas, mais ou menos informais, de organização popular, dos chamados movimentos sociais, nem muito menos as eventuais inovações em matéria de participação política coletiva, de base, virtual ou presencial, etc. Muito pelo contrário. Apesar de tudo, ainda é alentador saber quanta indignação, energia e criatividade pode ser mobilizada em defesa de direitos e valores civilizatórios importantes, mesmo num contexto geral tão adverso.
Mas poucas vezes parece ter se tornado tão flagrante o modo com que os hipócritas discursos pseudo-éticos, antipolíticos, antipartidários, antiestatais, ou antiinstitucionais, tradicionalmente manipulados pelas oligarquias, são capazes de engrupir tão habilmente incautos de ambos os lados do espectro político e ideológico (e me restrinjo apenas aos antípodas – direita, esquerda – porque o tal do “centro” já foi inviabilizado entre nós há muito tempo).
De um lado, creio que raras vezes nesse país o discurso primário da moralização terá servido tão bem à entrega incondicional do patrimônio público à voracidade de uma fauna sui generis de predadores. Tudo com o beneplácito aparvalhado de amplos setores sociais, que depois de aposentar suas panelas e sua santa indignação seletiva, se encontram agora prestes a entregar-se ao canto de sereia do reformismo inconseqüente, ou ao primeiro simulacro de salvador da pátria que apontar no horizonte (não é à toa, aliás, que a última "inovação" resgatada pela onda reacionária em voga do museu das mais infelizes quinquilharias políticas aposentadas seja a da tal "candidatura avulsa"; só falta mesmo a volta do voto censitário ou da eleição indireta em dois graus.... Oops!! Melhor ficar quieto e não dar idéia... sabe-se lá qual a última "novidade" que podem tentar nos impingir?).
Por outro lado, assistimos também ao nem um pouco surpreendente paralelismo de forças, de um extremo ao outro, decantando as vantagens do sacrifício do Estado e de seu intruso poder regulador, em nome das forças metafísicas do “mercado” ou da “sociedade civil”. Se uns apostam todas as fichas nas promessas vagas de imediato alívio econômico, pela via da institucionalização sem peias da selvageria capitalista globalizada, outros aguardam a ressurgência messiânica e mais ou menos espontânea das "massas oprimidas"– talvez à maneira efêmera e em grande medida enganosa de 2013 – ou a reencarnação de um novo e autêntico “agente revolucionário” (com um perfil mais “pós-moderno”, certamente).
E segue o baile.
Conhecendo exatamente, contudo, velhas e novas receitas de como perpetuar seus privilégios e oportunidades, as oligarquias não dão ponto sem nó. Após a conquista golpista do Poder Central, avançam em sua sanha, eliminando a legitimidade de qualquer forma de capacitação política popular e eficaz – principalmente via partidos, é claro – , além de preparar o que pode ser o golpe mortal da pulverização e neutralização do risco “populista” – melhor dizer, simplesmente, popular – com novo arremate de misericórdia: impondo ao país algum arremedo ou variante disfarçada do popularíssimo regime parlamentarista. Aquele já duas vezes rejeitado pelo eleitorado, mas através do qual se institucionaliza o acesso legal – e se possível perpétuo – ao poder para as oligarquias ruins de voto agregado em enormes magnitudes (como, por acaso, numa eleição presidencial brasileira).
Mas quem afinal se importa com instituições? Numa hora dessas, quem ainda acredita que valha à pena perder tempo refletindo e pesquisando sobre seus recursos e implicações? Que diferenças isso pode fazer agora?
Talvez não muita. Ou muito pouca. Sem dúvida, o contexto geral não ajuda, nem estimula.
Não nos iludamos, porém: assim como chegou onde está agora pela via – tortuosa, é certo, mas não menos eficaz – das instituições, é por meio delas que as oligarquias continuam e continuarão a exercer seu poder e a traficar com seus diversos lobbies.
Não somente porque aquelas as servem desigualmente bem (como se queixam – com forte dose de razão – as esquerdas).
Mas também porque sem elas, as tais das instituições, não se pode exercer, a rigor, poder efetivo e razoavelmente duradouro algum. Inclusive para modificá-las, as próprias instituições, e, é claro, o mais importante: a realidade na qual se inserem.
Esta lição nunca foi esquecida pelas oligarquias. Mesmo quando fingem desacreditá-la tão sistematicamente.
(E dormem os bois; mesmo com um barulho desses...)

sábado, 18 de novembro de 2017

Liberalismos, autoritarismos e outros "ismos" (inclusive os descaradismos, caradepauismos, etc.)

Minha querida mestra Ângela de Castro Gomes, colega de tantos anos de Cpdoc, deu entrevista para o Nexo Jornal com direito a uma pequena aula de raro e indispensável bom senso histórico, motivada pela última pérola de irrelevância discursiva produzida por Sua Excelência, o presidente preposto interino da ex-República, na qual ele teceu profundíssimos comentários sob certa tendência autoritária dos "brasileiros", de par com outras elucubrações inovadoras acerca das velhas e conhecidas oscilações entre centralismo e federalismo em nossa história (esse é um lado bom que ainda existe na prática do jornalismo, apesar de tudo: a oportunidade de ouvir a Ângela discorrer sabiamente graças a um pretexto irrelevante).
Não que as longevas e densas discussões sobre autoritarismos, liberalismos, federalismo, ou centralização política e administrativa no Brasil, sejam em si pouco importantes, ou inatuais. De modo algum. 
Mas quem pode levar a sério o discurso de Sua Excelência e se dar ao trabalho de realmente cotejá-lo com um debate tão rico e multifacetado como este, que há tantas décadas vem sendo travado em alto nível sobre as características próprias da trajetória política nacional, e as alternativas para ela, quando se atenta para a natureza da "ordem temerária", seus próceres e o conjunto de sua "obra" até aqui?
Como de hábito, a conversa fiada presidencial sobre autoritarismo, centralismo e que tais se dirige ao mesmo e inconsistente público-alvo: essa coisa ridícula que hoje se arvora no Brasil o epíteto de "liberais", e que insiste em nos fazer crer que estamos efetivamente diante de "reformas" consistentes e aptas a nos colocar em algum rumo que não o da reprodução em nova escala da velha barbárie nacional (com seus bolsões cada vez menores e mais ilhados de um simulacro de civilização moderna, ou pós-moderna).
Já se disse que o liberalismo no Brasil nunca passou de um grande equívoco. É possível que sim, ao menos em linhas gerais. Afinal, defender, à moda de um liberalismo econômico consistente, a igualdade de oportunidades, a livre-concorrência e a iniciativa privada produtiva em terra de escravocratas, mafiosos, especuladores e rent-seekers; ou, de outro lado, na seara mais própria do liberalismo político clássico, o primado do Estado de Direito, das garantias fundamentais e do respeito à Constituição e às instituições – em uma nação de golpistas, "autoritários instrumentais" e irresponsáveis castas prebendarias –, não são mesmo tarefas fáceis (que o digam, pois, os verdadeiros liberais brasileiros, de uma ou ambas as vertentes; com os quais, aliás, nunca pude concordar inteiramente, mas que muitas vezes respeitei como interlocutores sérios e comprometidos, à sua maneira, com a democracia e com o bem-estar do povo).
Não. Tudo indica que não se fazem mais, por aqui, liberais como antigamente.
Mas nesse ponto, pensando bem, porém, a fala presidencial sobre a República de fato não deixa de ressoar nosso passado e algumas de nossas tradições mais antigas. 
A fala de Itu, tal como poderá ficar célebre no futuro, evoca perfeitamente – e até geograficamente – uma época que julgávamos de muito superada: aquela em que oligarquias fechadas se digladiavam – com maior ou menor polidez – pelo acesso exclusivo ao poder de mandar e desmandar no país, servindo-se do Estado para suas negociatas, promoções predatórias de lucros artificiais – e quando necessário, socialização das perdas –, e tudo sob a fachada de um regime constitucional, à época aparentemente moderno, democrático e liberal. Em que, contudo, a luta política era muitas vezes resolvida na ponta da faca – quando não pela "degola" e via bico de pena – e na qual, por último, mas não menos importante, a chamada "questão social" era tratada como "caso de polícia".
A dúvida maior que fica, então, é mesmo de ordem histórica ou cronológica: até onde vai o furor reacionário e passadista da "Nova Ordem"? 
Pára em Itu e na Velha República?
Ou retrocede mais algumas décadas (ou séculos)?

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

A agenda

Diante do Febeapá que prolifera incessantemente, não só via redes, mas igual e principalmente na ainda chamada “grande mídia”, o artigo publicado há semanas por Marcos Coimbra, na CartaCapital ("Lula abriu fogo"), com o compromisso do ex-presidente, se reeleito em 2018, de convocar referendos para todas as principais "reformas" aprovadas pelo "Governo Temer" e sua base, desde o impeachment de Dilma, é uma grata exceção e dá realmente o que pensar. Não somente pelo conteúdo da matéria em si – a promessa de Lula, sua importância e implicações –, mas principalmente pelo tom, diria otimista, com que o articulista parece avaliar a possibilidade não somente de que o líder petista possa, de fato, disputar a eleição, e de que uma vez vencendo – como hoje é apontado pelas pesquisas, nos lembra Coimbra – conseguirá realmente tomar posse, governar e, inclusive, convocar todos os referendos necessários para submeter a agenda da “Nova Ordem” ao teste da aprovação popular (que, realmente creio, assim como o autor, dificilmente obterão; ao contrário da solicitude irresponsável – pra dizer o mínimo – com que tais "reformas" vêm sendo acolhidas pelas maiorias golpistas no Congresso).
Gostaria imensamente de partilhar do otimismo do articulista, não exatamente, ou somente, no que diz respeito à provável rejeição das "reformas" pela maioria do eleitorado brasileiro, mas sim no que concerne a acreditar que a pré-condição política para tais referendos, ou seja, a vitória e posse de Lula – ou de qualquer outro candidato com o mesmo compromisso – possa ser satisfeita no contexto atual de perversa subversão das instituições.
Ou seja: a manutenção dessa agenda impopular de "reformas" e a neutralização a qualquer custo e risco das forças que possam obstá-la é justamente o que ainda mantém razoavelmente coesa a coalizão golpista. E é muito difícil acreditar que, diante de sua relativa hegemonia atual, qualquer alternativa que minimamente represente ameaça à primeira – a agenda – seja tolerada. Não surpreende, inclusive, que tal tema tão importante não tenha ocupado maior espaço na "grande mídia", como bem o mencionou Coimbra. Como diz o linguajar popular, a quem afinal interessa levantar essa lebre?
É uma pena.
Pois essa poderia – e creio, deveria – ser a principal agenda e debate delimitador, e definidor de posições na campanha presidencial que, até segunda ordem, teremos em 2018: a da manutenção e aprofundamento desse conjunto de "reformas" e do retrocesso e desastre que ele promete para o futuro mais e menos imediato desse país, ou de uma busca – ou retorno – a alternativas de políticas que realmente recoloquem o Brasil no rumo de um crescimento com o mínimo indispensável de autonomia nacional, forçosa (re)democratização política e redistribuição da renda. A proposição de tal agenda de debate, aliás, já seria uma boa justificativa, tanto para o movimento do ex-presidente, quanto para a tentativa do articulista e seu veículo atentarem para o fato e nos informar a respeito (um bom – e assustador – resumo das implicações de partes da atual agenda de "reformas", nos foi fornecido recentemente pelo Senador Roberto Requião (PMDB-PR)).
Infelizmente, porém, já sabemos que nada disso deverá ocupar as manchetes ou dominar a pauta oficial dos previstos e possivelmente futuros debates eleitorais.
Havendo mesmo eleições, a agenda de campanha que será privilegiada pelos golpistas e seus porta-vozes na "grande mídia", e que pela enésima vez vai se forçar goela abaixo do eleitor, será a mesma que os reacionários e seus seguidores analfabetos políticos privilegiam, desde sempre: que o grande problema do Brasil, a ser resolvido pelo futuro Salvador da Pátria, é a velhíssima corrupção, e/ou a voracidade da bête noire do Estado regulador.
Que só existe uma única, repisada (e desastrosa) saída para as crises nacionais: aquela que, de um modo ou de outro, passa necessariamente por poupar as classes mais privilegiadas, escancarar as oportunidades para todo tipo de negociata predatória, deixando que todos os custos afinal recaiam sobre o mesmo e velho lombo dos pobres e da classe média (inclusive das legiões que embarcaram e ainda embarcam na esparrela da "passagem do Brasil a limpo!"– limpo sim, mas só se for de qualquer alternativa real de desenvolvimento econômico e social dignos desses nomes). E que se os mesmos pagadores de sempre não puderem ser convencidos a escolher por vontade própria assumir tais encargos – elegendo os candidatos favoritos da banca –, que se retire deles, enfim, o estorvo chamado voto e o que ainda restar das demais ilusões de soberania popular.

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Historinhas II (ou, brincando – de mau gosto – com os números)

Segue em pleno vigor o festival de desfaçatez que assola o país.
Se na semana passada fomos brindados com tentativas ridículas de tapar o sol com a peneira – questionando-se os índices de desaprovação do Exmo. Presidente da República (“já que vai tudo tão bem! Como é possível alguém desaprovar o "governo"?!”) – logo em plena segunda-feira a Folha de S.Paulo destaca em sua edição que "Maioria do país quer Lula preso e Temer processado".
Embora não possa surpreender ninguém o destaque negativo dado ao noticiário sobre o ex-presidente (e agora também ao atual), dessa vez, porém, fiquei encafifado com a manchete. Afinal, não foi o próprio DataFolha, do mesmo grupo empresarial, que tornou pública, também na semana passada, nova pesquisa de intenção de voto na eleição presidencial prevista para o ano que vem, apontando Lula como favorito em todos os cenários previsíveis? Como é possível que a maioria do eleitorado demonstre, simultaneamente, intenção de eleger presidente e de ver preso o mesmo personagem?
Não, querido leitor. Não culpe o eleitorado (como é habitual no Brasil).
Nem culpe os números (e no caso, o DataFolha).
A confusão – intencional ou não – é de responsabilidade única e exclusiva do jornal.
Pois basta olhar não a manchete, mas sim os números no texto da própria matéria para perceber que, sim, é possível – ao menos no Brasil de hoje – que uma parcela considerável do eleitorado se disponha a reeleger Lula, enquanto que outra, também significativa, queira vê-lo atrás das grades (http://www1.folha.uol.com.br/poder/2017/10/1923447-brasileiro-quer-lula-preso-e-aval-a-denuncia-contra-temer.shtml?utm_source=newsletter&utm_medium=email&utm_campaign=newsfolha).
Deixando de lado a problemática hipótese – improvável, mas não de todo impossível – de que possa haver alguma interseção entre os dois contingentes, o problema conceitual mais evidente se encontra na própria noção de "maioria". Afinal, de que maioria se está falando? Maioria simples, absoluta, qualificada, ou quase unânime? Sem dúvida que o uso do termo – maioria – já é em si relevante. Mas as palavras enganam (manchetes de jornal, então...). Por isso é preciso prestar um pouco mais de atenção (inclusive porque já na abertura do texto linkado acima o autor da matéria não tem nenhum escrúpulo em transformar a tal "maioria" de entrevistados numa entidade um pouco maior, quase mítica e universal: "o brasileiro", que, segue a missiva, "defende a prisão" de um, assim como "o prosseguimento da denúncia" do outro).
Pois não pode haver nenhuma dúvida com relação à malandragem da edição jornalística quando se comparam, no próprio texto da matéria, as diferentes "maiorias": a pró-prisão de Lula (cerca de 54%) com a dos que querem ver Temer devidamente investigado: 89%! Ou seja: o que a manchete "iguala" é francamente problematizado pelo próprio texto. A não ser, é claro, que se julgue que "maiorias" de 54 ou de 89% não fazem a menor diferença! Ou que os 40% minoritários que se manifestam na mesma pesquisa contra a prisão de Lula possam ser facilmente comparados e equalizados aos 7% contrários a um eventual aval da Câmara para processar Temer. Há portanto uma "pequena" diferença entre o "brasileiro" que já condenou Lula e o que quer ver Temer sendo processado, e uma diferença de magnitude um "pouquinho" maior entre os que não concordam com os diferentes ordálios que espíritos mais severos – talvez os eméritos juízes da Folha de S. Paulo e companhia midiática ilimitada – gostariam de ver aplicados a cada um dos personagens em questão, em sua desinteressada ânsia por justiça a qualquer custo,.
Deixando de lado a, digamos, infelicidade da edição da notícia, fica, porém, mais claro porque ambos os resultados com relação a Lula podem ser estatisticamente válidos: a maioria que hoje – ou semana passada – o elegeria, não é obviamente a mesma que o mandaria hoje para a cadeia. Está última parece se referir mais à dos que rejeitam terminantemente o líder petista, conforme a pesquisa de intenção divulgada na semana anterior.
Nesse sentido, se corretas as duas pesquisas de opinião – e nossa hipótese de leitura das mesmas – o que efetivamente as enquetes apontam, entre outras coisas, é para a profunda polarização nacional. Em especial no que diz respeito a Lula e ao PT.
Nada de muito novo, portanto. Bastaria, aliás, observar na matéria os dados desmembrados da pesquisa, principalmente no que diz respeito à renda e localização dos entrevistados para imaginar com boa margem de segurança quem são os típicos componentes de cada "maioria" ou "minoria" (assim como perceber a ideia um tanto quanto exclusiva – e excludente – de "brasileiro" que os jornalistas da Folha – e algures – provavelmente cultivam hoje em dia...).
Quanto à Temer... bem (sugiro humildemente a leitura do meu penúltimo post neste blog, justamente sobre a evolução de sua "popularidade", e cujo título é "Historinhas (brincando - mas não brigando - com os números").

domingo, 1 de outubro de 2017

Historinha (ou brincando - mas não brigando - com os números)

Análise de pesquisas de opinião é sempre um negócio arriscado. Ainda mais quando você não tem acesso a muitos dados, não pode desmembrar os índices agregados, nem pode sair a campo para testar hipóteses ou mesmo meras possibilidades de hipóteses.
Mas olhando a evolução dos números sobre avaliação do "governo"Temer, ao longo desse seu  tenebroso primeiro ano, não deixa de ser sugestivo o modo como eles parecem delinear uma tendência constante e ininterrupta de aumento da desaprovação.
À princípio, não poderia surpreender a ninguém em seu juízo perfeito que a dita "administração" atual tenha conseguido bater os recordes de avaliação negativa que até hoje eram galhardamente sustentados pelo há muito finado Governo Sarney (1985-1990), em seus deprimentes estertores (mais exatamente no ano de 1989, não por acaso o da eleição do ex-caçador de marajás, Fernando Collor de Mello – candidato, então, ao papel recorrente de salvador da pátria amada, salve, salve!). Com efeito, não pode ser minimizado o fato de que desde pouco meses após usurpada a presidência da República por Temer e chegando até a última pesquisa encomendada ao Ibope pela CNI ( https://g1.globo.com/politica/noticia/governo-temer-e-aprovado-por-3-e-reprovado-por-77-diz-ibope.ghtml ), os inicialmente razoáveis índices de  aprovação e confiança no "governo" seguiram sistematicamente despencando, aferição após aferição.
Mas como então interpretar tal fato levando-se em conta, porém, que não foram poucos os apoiadores da chegada dessa coalizão ao Poder – como ainda hoje existem muitos que, de um modo ou de outro a sustentam ou justificam (em geral, com argumentos tão convincentes e inspiradores quanto uma poesia de sua Excelência presidencial) –, assim como segue intacta e cada vez mais autônoma a agenda de mudanças que unificou o poderoso movimento golpista (a despeito de rusgas e rivalidades que acometem seus partidários, além, é claro, das diferentes apostas que vão fazendo em torno das eleições de 2018 – incluída aí, também, obviamente, a possibilidade de se impedir as próprias eleições, promovendo-se então outro golpe dentro do golpe)?
Uma historinha que pode dar conta dessas contradições é simples (mas espero que não faça nenhum boi dormir): a talvez não tão impressionante e constante deterioração da popularidade do "governo" Temer parece espelhar fielmente a reação e o desapontamento de relativa maioria do eleitorado brasileiro diante da promessa fajuta – alimentada ad nauseam pelos golpistas, suas claques midiáticas, et caterva de intelectualóides disponíveis - de que uma vez extirpada a praga petista do Poder, e sobrevindo a isso uma nova coalizão partidária devidamente sólida em torno do novo capataz e seu competentíssimo e abnegado projeto de salvação nacional, todos os problemas econômicos do País se resolveriam automaticamente, e, por último, mas não menos importante, toda a desenfreada e desnuda corrupção seria castigada e suprimida (porque, afinal, qualquer criança brasileira "bem informada" sabe que a malversação de recursos públicos em Pindorama é não somente uma invenção do PT, como exclusividade de seus governos!).
Assim, bastou por um lado que o bolso da maioria dos cidadãos não apresentasse os devidos e esperados sinais de redenção. E nem mesmo as alvissareiras novas de redução da inflação e de queda dos juros parecem ter surtido, por enquanto, grandes impactos (já que vá lá explicar a um desses bem alimentados dândis televisivos da economia engravatada que para o comum dos mortais sem crédito e acesso ao sistema financeiro a redução da taxa de juros não chega a entusiasmar, ou que a redução da inflação pode não fazer tanta diferença assim, dependendo dos itens que compõem a média ou do patamar inicial dos preços que, eventualmente, param de subir ou mesmo descem; ainda mais, é óbvio, se você não tem nem salário digno nem rede de proteção social que lhe permitam consumir...).
Quanto ao fim da corrupção... bem. Alguém já disse, e outros repetiram, ao longo dos últimos quinhentos anos - ou seriam mil, dois mil? - que neste assunto o dito cujo fica um pouco mais embaixo.
Que o digam sua Excelência, sua qualificadíssima entourage, suas bases pra-lamentares, e os implacáveis defensores da moral pública e palmatórias da humanidade, na mídia, no Ministério Público, no Poder Judiciário. Graças à ação patriótica e perfeitamente harmônica de todos, o cidadão brasileiro cada dia sabe melhor o quão pode dormir descansado com relação a seus direitos fundamentais e ao destino seguro e eficaz do imposto que com tanto suor e alegria destinou aos encargos da "gerência".
Junte-se afinal, a tal enredo edificante que nos vem sendo legado há coisa de um ano pelos novos líderes da República, o conjunto portentoso de medidas e reformas que eles vêm promovendo com tanta presteza e espírito público, para o bem de todos e felicidade geral, e ainda caberia, mais uma vez, perguntar: é possível ter alguma dúvida dos porquês de tais índices de aprovação e confiança?

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

O Centro impossível

Desde o marco temporal inicial da crise atual – a aceleração da articulação política golpista, cujo desenlace foi o impeachment de Dilma – chama-me a atenção a angústia com que razoavelmente bem-intencionados espíritos tentam se equilibrar em algum ponto intermédio entre os que defenderam, de um modo ou de outro, a suspeita intervenção "cirúrgica" – para salvar a Pátria e sua economia saudabilíssima dos sanguinários bolivarianos populistas petistas (sem falar, é claro, dos velhíssimos, terríveis e incorrigíveis comunistas ressurretos) – e aqueles, ditos "esquerdopatas", ou "democratopatas", que, como eu, independentemente de diversas simpatias e antipatias partidárias e ideológicas, de um jeito ou de outro não aceitaram ver as instituições democráticas internamente subvertidas e a Constituição rasgada e achincalhada.
Se, no princípio, confesso, não tive muita paciência para com tal espécime de criatura indecisa ou volúvel – diante da clara e evidente ameaça institucional e social representada pelo golpismo -, hoje me sinto mais movido por uma sincera compaixão por eles, em especial aqueles que já se arrependeram por, de um modo ou de outro, subscrever o golpe. No mínimo, porque talvez se deram conta de que a emenda – ou seja, o novo status quo – consegue ser infinitamente pior do que qualquer diagnóstico negativo passado, dos mais tendenciosos, inclusive, sobre o "soneto" (quer dizer: o Brasil sob o governo legítimo de Dilma).
Mas a falta de paciência prévia e a compaixão atual derivam ambas da mesma e singela razão: nossa situação é tão grave que não há propriamente posição intermediária possível.
O chamado "centro" político se encontra hoje, a sério, rigorosamente inviabilizado. Mesmo que alguém ainda queira localizar algum resquício de legalidade no impeachment, qualquer tentativa de justificar o "programa" de "governo" posto em prática pelos usurpadores – e que não seja um caso incurável de polianismo político, ou, obviamente, fruto de puro fundamentalismo doutrinário neoliberal – só parece passível de compreensão na medida em que o justificante tenha ele próprio acesso e interesse material imediato e míope no escancarado porém exclusivo clube de negociatas instituído pelo "governo" (o que, convenhamos, não é coisa que se aplique à realidade econômica da maioria esmagadora dos mortais, inclusive muitos dos eventuais centristas ou direitistas mais ou menos empedernidos na justificação do golpe).
Ou seja: a subversão dos marcos institucionais e o derretimento do pouco que restava da credibilidade da Lei e seus operadores não se restringe ao jogo da chamada política oficial (onde já seria suficientemente grave). Não. Os belos exemplos de comportamento público proporcionados dia a dia justamente por aqueles que mais deveriam zelar por sua "autoridade" atingem em cheio as bases de civilidade, ou "cordialidade" que ainda teimavam, e às vezes ainda teimam em tornar a vida cotidiana minimamente suportável e viável nesta sociedade. Tanto que é difícil dizer o que mais contribui para o esgarçamento do tecido social e o crescimento da violência e insegurança sociais, num contexto que a tradicional e portentosa desigualdade brasileira desde sempre já tornou suficientemente problemático: se o vôo de galinha da economia nacional – pilotada pelos "austeros" condutores da tecnocracia planaltina – ou o show de cafajestagem explícita e vale-tudo com que somos brindados exaustivamente pela novela tediosa e interminável das denúncias e "investigações", cevadas pelo pagode de uma nota só da cobertura "política" midiática e seus imparciais artífices.
Mas o que torna cada vez mais exíguo o espaço reservado a uma tentativa de posicionamento ao "centro" – para além do naufrágio das instituições e o desprezo crescente de qualquer coisa que pudesse ainda sugerir as simples idéias de equilíbrio ou tolerância – é que o rolo compressor de aniquilamento de direitos e do que seja lá que ainda possa ser considerado de natureza Pública nesse país, repele forçosamente quaisquer forças políticas e sociais atuantes para os extremos do espectro ideológico e estratégico.
Não há meio termo que resista diante do verdadeiro centrifuguismo imposto não somente via radicalismos irresponsavelmente insuflados, há anos, pelo moralismo golpista, mas agora também estimulado pela política de terra arrasada patrocinada ininterruptamente pelo "governo" e suas bases, com as devidas colaborações marginais dos oportunistas da hora (igualmente marginais em sua representatividade e origens sociais).
Não está constrangedoramente exposto apenas o Rei, com sua roupa "nova". Mas também toda a corte e os inumeráveis penetras e cronistas bajuladores do baile.
Não há espaço, pois, para nenhum centrismo, eqüidistância ou "terceira-via", nem muito menos para pseudo-outsiders, com sua conversa fiada de idoneidade moral, competência técnica, antipartidarismo e suposto apoliticismo.
Só para oportunismos da mais variada espécie.

domingo, 27 de agosto de 2017

Metástase e oportunismos

Como entender os solavancos a que somos submetidos dia após dia pela nova coalizão usurpadora e sua agenda?
Diante de tamanhos absurdos e temeridades – desculpe, não dá pra evitar... – fica difícil não começar a acreditar em teorias conspiratórias e achar que tudo faz parte de um mesmo pacote de verdadeiros crimes contra o interesse popular devidamente premeditados e inseridos, de saída, nas origens do projeto golpista consumado há um ano (mas possivelmente preparado, ou cultivado há mais tempo).
Pode ser.
Mas além do habitual desprezo que nutro por esse tipo de construção narrativa, e da incorrigível desconfiança com relação a grandes apostas na consistência e racionalidade de processos históricos como esse, atribuir tamanha sistematicidade e previsibilidade aos golpistas e a seus atos me soa como uma indevida atribuição de competência e antevisão ao que segue me parecendo muito mais uma conjunção trágica de oportunismos míopes de uns com complacência criminosa de outros, completando-se o quadro sinistro com apoios inconsequentes de miríades de setores sociais inseguros e ressentidos, movidos por ansiedades imediatistas, temores ou preconceitos tacanhos.
Na verdade, acho que a melhor metáfora para a situação atual é clínica: a sociedade brasileira, vitimada que foi, inicialmente, em seu centro nervoso de comando por um autêntico tumor maligno – o golpe – é hoje um corpo acometido de verdadeira metástase institucional, e que, de tão debilitado e desprotegido em suas usuais defesas imunológicas, tornou-se presa fácil de todo tipo de infecção oportunista.
Assim, creio, se pode ter um melhor entendimento ou imaginação da sequência ininterrupta de novos horrores com que temos de conviver há meses. Das "reformas" mal-ajambradas e à toque de caixa, ao desmonte e à rapinagem ansiosa do patrimônio público – travestidos eufemisticamente de "privatizações" –, além do escancaro ao assalto ambiental e à exploração predatória de reservas minerais estratégicas, por exemplo.
O fato é que o sôfrego balcão de negociatas instituído pela nova Situação consegue superar qualquer previsão pessimista em matéria de dano incalculável ao país e a seu futuro.
E pensar que todo o caminho para esse inferno foi pavimentado com as intenções, até mesmo boas, dos moralistas de ocasião e sua legião de incautos – ou simplesmente hipócritas – seguidores, que diziam pretender "passar o país a limpo" (pois não é que o estão "limpando" mesmo?!).
Seja como for, o quadro clínico deprimente está aí consolidado. De modos que, aparentemente, nem mesmo uma tardia remoção do tumor original parece ser mais suficiente para a regeneração do organismo comprometido.
As únicas esperanças parecem resistir num segundo, ou terceiro diagnósticos (e confesso que adoraria estar completamente enganado). Ou na ação, à essa hora milagrosa, de algum tipo de anticorpo que ainda pudesse se manifestar, a partir, quem sabe, do que resta de saúde neste gigantesco enfermo.
O certo é que não parece haver "equipe médica" ou "tecnologia de ponta" (administrativa, econômica ou institucional) capaz de, sozinha, operar o milagre. Se o paciente de algum modo não reage...