domingo, 13 de agosto de 2017

O bode (rides again)

Como era de se esperar, tudo leva a crer que a introdução dessa excrescência apelidada de "distritão" na atual reforma política – ao que parece, somente para as próximas eleições (a partir de 2022 utilizaríamos uma versão tupiniquim de sistema misto alemão) – não passa de picaretagem casuística da grossa. Mas também não se pode excluir a possibilidade de se tratar, mais uma vez, da velha artimanha de se colocar o bode na sala. Na republiqueta dos neo-golpistas tudo é possível.
Para quem ainda não sabe, o “distritão” seria aquele sistema em que o eleitor vota em candidatos individuais para as Câmaras e Assembleias, e se elegem os mais votados individualmente. Ponto. Ao contrário do que ocorre hoje, no sistema proporcional de lista aberta, porém, neste novo formato os candidatos disputam e se elegem independentemente de seus partidos e, em grande medida, contra eles. Ou seja: depois de se discutir durante anos diversas outras formas de reforma das nossas eleições o Congresso pode estar se preparando para ratificar justamente a provavelmente pior delas. Sinal dos tempos. 
Seja como for, há muito estou convencido de que reforma política é como aquele velho clímax de filme de aventura em que se está diante de um evento ou passagem que só ocorre ou se abre de tempos em tempos, de acordo com a incidência dos raios do sol em um determinado ângulo, e na estação do ano pré-determinada, ou conforme conjunções astrais muito especiais, e que tentar levá-la adiante fora de tais momentos é inviável ou muito perigoso.
O momento atual, então, que talvez como nenhum outro, há muito tempo, pode nos levar a sonhar ardentemente como uma reforma política salvadora, e que nos livre do interminável filme de horror em que fomos inseridos há alguns anos, é certamente um dos menos propícios e recomendáveis para se tentar algo do gênero.
Primeiro, porque de um ponto de vista puramente técnico – se é que tal coisa é possível em matéria de política – poucas tarefas são mais ambiciosas, complicadas e arriscadas do que tentar reformar um sistema de representação. São tantos os fatores a se levar em conta, tantos objetivos possivelmente contraditórios que se tem de conciliar e articular, e tão controverso o capital de conhecimento histórico e teórico que se necessita mobilizar para não se correr o risco de reinventar rodas inadequadas, ou simplesmente quadradas, que não raro a necessária prudência do especialista acaba se convertendo em desânimo, inação e desistência.
Mas é no próprio terreno da política real que se encontram os maiores obstáculos a uma reforma política efetiva e produtiva. E nem sempre é de se lamentar.
Os obstáculos da política à sua auto-reforma, ou ao menos do seu crucial sistema de representação, se referem, obviamente, ao fato de que é muito difícil se chegar a algum consenso sobre o que e como reformar, dada a mais do que provável diversidade e antagonismo de interesses no desenho das regras do sistema, em função da pluralidade e variedade de formas e condições de disputa política concreta na sociedade. Quanto mais fragmentada, diversificada e desigual a realidade social, econômica, ideológica e regional a ser representada pelo sistema político, mais difícil o acordo em torno de regras novas que certamente poderão abrir novas perspectivas de oportunidades para certos atores do jogo, ao mesmo tempo em que podem representar grandes ameaças aos recursos e posições de outros. Partindo do pressuposto razoável de que nenhum ator político minimamente racional vai apoiar mudanças de regras que possam vir a prejudicá-lo em futuro mais ou menos imediato – ou que em caso de séria dúvida e considerável incerteza tenda a trocar o conhecido pelo incógnito – é de se imaginar que em contexto de grande diversidade e pluralidade de forças políticas, dificilmente se poderá superar impasses e vetos a qualquer reforma digna desse nome, sem a intervenção de algum ator, ou atores estratégicos – como, eventualmente, um líder de Executivo popular, à frente de maiorias partidárias fortes – que possam articular e negociar termos e apoios em direção a um projeto minimamente consensual e majoritário. Não precisamos refletir muito para perceber que se a primeira condição problemática – a da fragmentação e do pluralismo – se encontra fortemente presente em nosso país, o segundo pré-requisito, o de solução – dependente da agência de uma forte liderança política e institucional popular – parece ao menos um "pouco" prejudicado no contexto atual.
Digo, contudo, que nem sempre é de se lamentar tal tipo de impasse porque, assim como tenho, tal como muitos colegas, as minhas preferências em matéria de reforma, tenho ainda mais simpatia por várias formas de pluralismo, e por equilíbrios relativos de poder em regimes razoavelmente democráticos: daqueles que dificultam ações apressadas, temerárias (com duplo sentido, por favor!) e danos irremediáveis. Também desconfio muito dos "rolos compressores", das "administrações extraordinárias", de fanatismos reformistas ou revolucionários, de vários matizes, e simplesmente abomino "regimes de exceção", etc. E na tormenta que estamos atravessando, com esses "timoneiros" a bordo, melhor nem pensar por quais rotas seremos levados a navegar.
Ou seja: certamente acho que nosso sistema eleitoral precisa de reformas e, se possível, rapidamente (mesmo admitindo, porém, que não existe reforma ou panaceia institucional capaz de, por si só, nos livrar da crise atual; como diz o velho ditado, "the hole is far...").
Mas de qualquer maneira, se for para deixar o bode na sala, melhor nem deixar ele entrar.

quarta-feira, 19 de julho de 2017

De contrastes e contragolpes


"Such a parcel of rogues in a nation...", 
(Robert Burns, 1791)

Não vou me alongar agora sobre a já fartamente prevista e denunciada consumação da perseguição sistemática contra Lula pelo arremedo de Torquemada de Curitiba. O argumento, o roteiro e o desenrolar desse enredo vergonhoso já são bem conhecidos e quem quiser continuar acreditando que isso faz parte de um simples processo normal de moralização pública que faça bom proveito. Sempre há ingenuidade e justificativa para tudo e para todo o tipo de preconceito e autoindulgência nesse mundo.
Prefiro me dedicar a coisas mais graves (afinal, essa aberração jurídica certamente terá muitos desdobramentos ainda, antes que o seu objetivo final, a inviabilização da candidatura de Lula nas próximas eleições, possa ser garantido)
Retomando o fio da discussão sobre a "reforma trabalhista", porém, creio que é difícil saber o que é mais desastroso: o conteúdo aparentemente tosco e mal-ajambrado do conjunto de itens que compõem o monstrengo, ou a igualmente aparente coesão do bloco político heteróclito que impôs ao país essa arapuca. 
No que se refere ao conteúdo da reforma, à parte o claro e principal direcionamento no sentido de eliminar qualquer forma de proteção ao trabalhador - seja com apoio sindical ou por intervenção da Justiça -, em sua óbvia e extremamente desigual posição de barganha frente ao empregador, chamam a atenção os penduricalhos que parecem atender a todo tipo de interesse "empresarial" ultra-específico e suspeito. Na verdade, só um objetivo geral parece saltar aos olhos: oficializar, legalizar e, portanto, estender abusos de poder e informalidades já fartamente praticadas no "mercado" e excluir qualquer forma de mediação do Poder Público que não seja em ratificação ao poder concreto, informal e arbitrário dos patrões. Ou seja: se antes a grande maioria de nós já vivia, de fato, sob uma forma particularmente perversa de "capitalismo selvagem", agora tudo indica que muitos mais viveremos, de direito, sob alguma forma de exploração e promoção ainda maior de exclusão e desigualdade, cujo conceito ainda me escapa (ou, na verdade, é tão antigo, tão digno dos tempos de outros "modos de produção", que já o havia esquecido). Não há mais nem como soar cômicas as manifestas apostas - não se sabe se efetivamente ingênuas ou cínicas - que se ouve aqui e acolá acerca dos possíveis efeitos virtuosos dessa "reforma" numa futura geração de renda e empregos, e na retomada do crescimento (será? Talvez daqui a décadas, quando finalmente toda a economia nacional se adaptar a tais mecanismos "meritocráticos" de busca da eficiência e produtividade, e nos legar seus tão ansiosamente aguardados benefícios coletivos de modernização e bem-estar - comprometidas, é claro, apenas algumas gerações dos brasileiros mais vulneráveis, sacrificados no meio do caminho em prol de fins tão nobres....). 
Já no que diz respeito ao bloco político, há várias razões que poderiam nos ajudar a explicar a sua relativa força e eficácia pra-lamentar. Algumas são perfeitamente corriqueiras e inerentes ao sistema: como a fidelidade das bancadas hoje majoritárias a suas diversas e economicamente poderosas clientelas, assim como a relativa consistência programática das primeiras - consistência mais ou menos ideológica ou fisiológica, não faz tanta diferença -, assim como sua habitual subserviência diante da caneta afiada de um Executivo desprovido de pruridos protocolares, o principal responsável, afinal, pelo controle e avanço destrutivo da atual agenda. Outras, de fato, exalam aromas ainda menos agradáveis, relativos às moedas de troca literalmente mobilizadas para garantir senão as próprias reformas, ao menos os requisitos de poder necessários à continuidade das mesmas - como, aliás, o ilustram os transes patéticos por que passou a Comissão de Constituição e Justiça da Câmara na semana passada (mas que importa, afinal, diante de outros fatos realmente graves, como "pedaladas fiscais"?).
Isto nos leva, porém, ao ponto crucial: o dos contrastes entre a pusilanimidade, a canastrice e a sofreguidão dos líderes políticos do golpe e seus desdobramentos, assim como as tensões e rivalidades crescentes entre eles, de um lado, e a coerência de motivações e hegemonia política da agenda que promovem e representam, de outro. 
Sim: o golpe é representativo.
Ele não somente representa interesses bem delineados e específicos, como se move cada vez mais desembaraçadamente graças a omissões conhecidas e ao consentimento tácito - quando não o apoio entusiástico - de certos setores, maiores ou menores, de parcelas da chamada "opinião pública" (sem esquecer, é claro, a grande maioria da "opinião publicada"). 
Como em todo processo dessa natureza, contudo, é claro que tal unidade é mais aparente do que real, mais superficial do que profunda, mais contingente e efêmera do que duradoura. O que em geral lhe garante maior sobrevida e objetividade política, porém, não são outros fatores senão, de um lado, uma mistura de oportunismo com luta desesperada por sobrevivência - em contexto cada vez mais hobbesiano e anárquico de grande incerteza e miopia imediatista - e, de outro, a simplória e patologicamente oportuna eleição de algum inimigo comum, ou bode expiatório, ou ainda, eventualmente, a entronização de algum salvador da pátria ou crença miraculosa em algum princípio ou projeto, que possam atrair uma mobilização mais ou menos cega e irresponsável, no afã de se fugir a qualquer custo e o mais rapidamente possível do círculo vicioso das crises e da perda de referências ou apoios na realidade.
Certamente a grande maioria do povo brasileiro não se converteu subitamente às promessas metafísicas do neoliberalismo tupiniquim, nem igualmente dirige suas preces ao sucesso e à consagração da ilustríssima administração Temer, ou de um eventual arremedo de gabinete parlamentarista liderado pelo Democratas ou pelo Partido que ainda teima em se chamar da Social-Democracia Brasileira. 
Ainda assim, são estes e suas altas clientelas os principais beneficiários imediatos da reação em curso e das resultantes imediatas do transe a que há anos se submeteu nossa sociedade, ao revolver o lodo do seus reservatórios de temores e preconceitos, seu "volume morto", há tanto tempo esquecido e estagnado.
Sim. Eles dão as cartas.
Por enquanto.
Mas assim como a agenda do golpe se autonomiza - e hoje, indubitavelmente, já pode até prescindir de prepostos como Temer, Maia e cia. ilimitada - a pauta do contragolpe vai necessariamente adquirindo seus contornos inevitáveis e urgentes. E só o tempo poderá dizer como e quando o "legado" golpista em construção será efetivamente confrontado e superado.
Até lá, somente uma certeza: dificilmente conheceremos algo que possa ser efetivamente chamado de paz social ou estabilidade.

sábado, 17 de junho de 2017

"Depois que o tá ruim chegou, nunca mais melhorou..." (ou, bem que queria soar mais otimista no feriado, mas tá difícil)

Tá ruim e tudo indica que ainda vai piorar muito, antes que melhore.
Por quê?
Simplesmente porque independentemente do desfecho mais próximo da crise imediatamente atual, e que envolve diretamente o presidente da nova republiqueta, o golpe consumado no ano passado é muito maior, mais permanente e consistente do que seu ato fundacional – o impeachment de Dilma –, como também vai além do desempenho dos vários canastrões e picaretas que o promovem no proscênio da farsa tragicômica – mais trágica do que cômica – que domina esse país nos últimos, três, quatro, cinco ou, para ser mais exato, doze anos (desde que explodiu o famigerado caso do "mensalão").
Ele é maior porque ultrapassa em muito os marcos institucionais, que vêm sendo sistematicamente destroçados e sacrificados em seu altar de moralização hipócrita e seletiva – a Justiça Eleitoral é a mais recente vítima (auto) imolada do massacre –, maior porque mobiliza setores poderosos da sociedade brasileira, com efetivo apoio, mais ou menos inconsequente, de parcelas maiores, não tão poderosas, porém significativas, da mesma, e, por último, mas não menos importante, também porque se consubstancia, de um lado, numa pauta de "reformas" infelizes que, por assim dizer, se autonomizou, e, de outro, numa tentativa desesperada de controle da anarquia judicialesca, ambas se constituindo nos únicos e fundamentais pontos de convergência das legiões golpistas.
De modos que, seja qual for o destino mais ou menos imediato do "governo" Temer, tal pauta e tal desespero seguirão de um modo ou de outro em suas corridas desabaladas rumo à promoção do caos social e da inviabilização de qualquer estabilização política e recuperação econômica dignas desses nomes, e impedindo, particularmente, o retorno do que quer que que possa ser chamado sem constrangimento de ordem democrática neste país, por longo tempo.
É possível vaticinar sobre os vários desdobramentos possíveis da crise atual: continuidade zumbi do "governo" Temer (não necessariamente só até 2019), interrupção do mesmo e sua substituição por sucedâneo eleito indiretamente, ou, até mesmo, improvavelmente, por novo presidente eleito diretamente, etc.
Seja como for, contudo, isto de modo algum modificará o sentido profundo e principal do que nos aguarda: inviabilidade, por longo tempo, de um novo governo autenticamente popular, democrático, legítimo e, ao mesmo tempo, institucionalmente capaz de levar adiante uma agenda que não somente reverta as excrescências do legado Temer – tanto o já acumulado quanto o que ainda está por vir – mas recoloque o Brasil no devido rumo do crescimento sustentado com a imprescindível redistribuição da renda e combate à desigualdade. Em suma: efetivos governos mais à esquerda, únicos capazes de enfrentar os maiores desafios que há muito esse país impõe a seu povo e a seus dirigentes (quando os há).
Isso não deve ser interpretado como descrença ou desincentivo à mobilização popular ou à presente luta por "diretas já". Embora não tenha grandes esperanças com relação à tal empreitada, entendo, porém, que, por várias razões, ainda assim é uma opção melhor do que a continuidade mal-ajambrada do "governo" Temer, ou sua substituição por um mandatário tampão, eleito indiretamente por estas maiorias pra-lamentares que estão aí.
O que não deve é restar dúvidas quanto ao fundamental: podemos sim, ter governos mais ou menos híbridos de neoliberalismo de fancaria com puro reacionarismo oportunista – como o que temos agora, e possivelmente continuaremos a ter no futuro mais imediato.
O que não poderemos ter assim, ao mesmo tempo, é democracia e ordem.
E não porque tais termos sejam intrínseca ou inevitável e mutuamente excludentes. Infelizmente, não. Regimes democráticos mais estáveis, e em condições socioeconômicas mais favoráveis, podem até se dar ao luxo de eventualmente flertar por algum tempo com retrocessos em suas políticas públicas e apostas pra lá de duvidosas no poder demiúrgico dos mercados.
Mas jamais uma republiqueta de bacharéis casuístas, de escravocratas e golpistas, campeã mundial de desigualdade, irresponsabilidade e hipocrisia.

domingo, 23 de abril de 2017

De tragos, filósofos e esfinges

Não é possível entender a crise atual sem levar em conta as especificidades do contexto particular brasileiro.
Não é possível entender a crise atual sem levar em conta as dimensões internacionais, ou transnacionais do processo.
Não é possível entender a crise atual sem levar em conta o contexto histórico mais amplo que envolve tal processo.
É bem possível que não seja possível entender a crise atual completamente.
Nem agora, nem daqui a décadas, quando os historiadores futuros contarem nossas misérias.
Mas nós que a vivemos, não temos muita escolha.
Ou tentamos compreendê-la, ou seremos tragados por ela.
E há uma grande chance de sermos tragados por ela, independentemente do quanto possamos compreendê-la.
A rigor, já fomos tragados (e se me permitem a metáfora infame, também já estamos sendo expelidos por ela).
Um velho filósofo dizia que o processo histórico movia-se segundo os desígnios de certa "astúcia da Razão". Ele era esperto e muito criativo. Mas parece que um pouco distraído. Teria se esquecido de dizer muitas outras coisas, diria dele logo depois outro velho filósofo, seu discípulo. Em especial, creio, que a tal Razão astuta talvez fosse também um bocado perversa (acho que o discípulo discordaria de mim; para ele a Razão seria contraditória, "dialética", mas no fim tudo acabaria bem; sempre tive problemas com esses e outros filósofos e suas Razões).
Ou melhor: cada vez mais me convenço de que os antigos filósofos, da Antiguidade e até da Idade Média é que realmente sabiam das coisas. De um modo ou de outro, para eles, tudo sempre acabava mal. Mas renascia-se (aliás, teve um filósofo mais recente, próximo no tempo dos dois primeiros, que disse qualquer coisa a respeito; era um sujeito meio confuso e prolixo, mas gosto dele; mesmo sem saber se alguma vez o compreendi corretamente).
Seja como for, os filósofos parecem não poder nos ajudar muito a compreender tudo aquilo que mencionei acima e que julgo necessário sobre essa crise.
Talvez apenas sejam capazes de ajudar a lidar melhor com ela, cotidianamente, mesmo sem poder compreendê-la, e muito menos mudar seus rumos.
E talvez, nas circunstâncias atuais, não seja pouca coisa.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

O paradoxo trágico da crise institucional brasileira (reflexões políticas inoportunas sob efeito de eflúvios momescos (ainda) tímidos)

A única instituição que poderia superar a atual crise política brasileira de modo minimamente razoável, e com os comparativamente mais baixos custos econômicos, sociais e humanos, é justamente aquela que menos tem chance de se apresentar. Talvez o crime mais imperdoável da pandemia moralista, jurisdiscista, economicista e fundamentalista que assola o país seja justamente o da demonização e inviabilização dos partidos políticos dignos desse nome, ou de qualquer coisa que se destine a cumprir a mesma finalidade.
E quando falo em partidos autênticos de modo algum pretendo reiterar a infeliz tradição idealista nacional que se habituou a lamentar não serem os partidos brasileiros tão fiéis aos modelitos abstratos e hipercorretos que sempre zelou por importar e cultivar. De jeito nenhum.
Ao contrário dessa renitente sociologia das ausências – uma das versões acadêmicas do onipresente complexo de vira-latas nacional – sustento que, sim, já tivemos grandes e autênticos partidos neste país. E há até pouquíssimo tempo atrás, inclusive.
Sim. Para não recuar demais no tempo, tanto o velho (P)MDB, quanto o PSDB de algumas décadas, e, é claro, o PT de anteontem (assim como uma pequena miríade de outras siglas), são exemplos de agremiações que já atuaram como partidos de verdade, capazes de buscar e até conseguir a realização de importantes objetivos políticos, com coerência programática, ação estratégica e considerável disciplina coletiva. Goste-se ou não dos resultados assim obtidos.
É claro que os puristas e chatos vão contra-argumentar citando fisiologismos, incoerências ideológicas, mudanças de rotas e alianças discutíveis nas trajetórias concretas desses e de outros exemplos do gênero. E sem dúvida, elas todas existiram, existem e continuarão a existir. Como tudo o que dura e importa na vida real e não na abstração dos modelos.
Mas nada disso impediu no passado, nem necessariamente impediria no futuro, que grupos articulados de indivíduos se unissem em torno de projetos comuns de poder e interferência efetiva na realidade, no sentido de alterar o rumo dos acontecimentos – ou preservar algo de valor que porventura estivesse sob ameaça – e assim produzir resultados práticos para toda a sociedade. Está, aliás, uma velha e ainda válida definição de partido político ou coisa parecida, creio (e desde que, é claro, fossem preservadas e respeitadas as regras básicas de competição que deveriam proteger a todos estes competidores).
Infelizmente, porém, nossa situação atual é tão lastimável que partidos políticos eficientes são tudo aquilo que, a rigor, não temos hoje, e que, a julgar pelo rumo dos acontecimentos, e pelas altissonantes vã-guardas politicamente indigentes que empurram hoje o país para uma longa noite sem rumo, tão cedo não teremos. Sem dúvida esse foi mais um belo serviço que devemos todos agradecer não só à reciclagem contemporânea das mais vetustas e hipócritas tradições antipartidárias brasileiras, mas também, por que não, à nossa querida mídia e à legião de intelectuais (!?) que nela pontificam diariamente, com sua autoridade técnica e moral insuspeita e seu proverbial (senão mesmo conveniente) desconhecimento basilar de teoria e história políticas. Pois que o mais evidente resultado da histeria moralista não é, obviamente, a instauração da "ética na política", mas, muito pelo contrário, o "salve-se quem puder", a captura de toda a ação partidária pelas imposições e urgências das cumplicidades que envolvem seus vários clãs, conventículos e máfias, e o escancaro das portas do Estado para toda espécie de rent-seeker e predador bem situado e privilegiadamente relacionado junto aos condôminos eventuais do poder. Ou seja: nenhum espaço para programas de políticas públicas mais abrangentes e dignas desse nome, e sim apenas um pregão de transações selvagens em torno do melhor quinhão do butim ou da manipulação mais imediatista e inconsequente dos marcos legais e (des)regulatórios. Com ou sem a embalagem grandiloquente e suspeitíssima de “reformas”!
O PT, a mais importante experiência de partido de massas em toda a diminuta história democrática brasileira, encontra-se destroçado. Parte por seus próprios erros, mas também, e muito mais, alvo da mais sistemática campanha de difamação e desconstrução que talvez já se tenha assistido por aqui. O PSDB e outras siglas hoje no poder, outrora também importantes, comprometeram tudo o que ainda restava do seu capital numa aventura inconsequente e na adesão a uma agenda política e institucional suicida. De modos que se vêm hoje inapelavelmente tragados pela mesmíssima tempestade que ajudaram a invocar contra os odiados rivais. Alguns de seus quadros e caciques podem ainda sonhar com alguma saída mais ou menos incólume do turbilhão atual (só a Providência – ou os arcanos esotéricos da Justiça e do Ministério Público – o sabem). Mas as legendas relegaram-se todas à vala comum do oportunismo imediatista, reféns de suas próprias culpas, cisões, receios, arapucas e disputas internas, e como tal se inviabilizaram para qualquer ação consequente. E assim serão lembradas – ou em breve devidamente esquecidas – pelos eleitores.
Quanto aos vários outros corrilhos de oportunistas, com suas legendas intercambiáveis, esses podem seguir usufruindo seus raros minutos de glória e vitórias mesquinhas, antes de serem definitivamente reduzidos à ignomínia ou insignificância histórica que sempre lhes foi e será destinada.
O mar definitivamente não está pra peixe.
Nem muito menos, para a ação consistente de grupos em defesa de interesses reais, certamente não universalizáveis, mas ainda assim capazes de interação produtiva de ordens sociais minimamente estáveis e previsíveis, e até marginalmente eficazes de um ponto de vista (re)distributivo. Os velhos e desprezados partidos democráticos de antanho.
É mesmo trágico. E receio que muito tarde.
Pois de fato parece que não resta muito antes que, afinal, a própria política e suas artes de negociação e acomodação de diferenças – completamente absorvidas e desfiguradas pelo vale-tudo atual – sejam definitivamente banidas em prol da demagogia mais deslavada ou do autoritarismo puro, simples. E inevitavelmente incompetente.

(melhor mesmo cair na folia e esquecer a realidade – ou refugiar-se de ambas, em boa companhia; pelo menos até a quarta-feira)

domingo, 12 de fevereiro de 2017

Deriva

Não, você não bebeu demais, nem colocaram inadvertidamente alguma droga suspeita no seu copo. Você está irremediavelmente sóbrio.
A sua confusão mental não é simplesmente mental, muito menos exclusivamente sua.
O mundo realmente mudou. Talvez você tenha mesmo cochilado um pouco, ou distraiu-se enquanto tudo acontecia. Mas agora é tarde. Muito tarde.
Esqueça o universo com o qual estava acostumado, há tanto tempo.
Olhando à sua volta, eu sei, tudo à primeira vista parece igual. O mesmo sol, a mesma paisagem, os mesmos vizinhos e seus cães de estimação, o mesmo mau gosto musical em alto volume das festas de fim de semana.
Mas não se iluda.
Como diziam Milton e Lô, "nada será como antes"...
A princípio, o deslocamento inicial se deu de modo sutil, quase que imperceptivelmente.
Mas seus desdobramentos logo assumiram maior relevância e visibilidade.
Até que, em determinado momento... pronto! Tudo havia mudado. Como se da noite para o dia.
Na superfície das coisas, de novo, aparentemente, nada pareceria fora de roteiros já conhecidos e, até certo ponto, banais: mais uma crise econômica em escala e natureza globais, mobilizações populares súbitas, tão aparentemente avassaladoras quanto relativamente efêmeras, certas escolhas eleitorais ou plebiscitárias infelizes, novos demagogos e oportunistas no pedaço, mais um golpe de Estado ou coisa parecida em alguma republiqueta, conflitos civis e explosões de violência política, ou terror, matizadas, ou embaladas, por rivalidades étnicas ou religiosas, migrações em grandes números, devidamente rejeitadas por xenofobias e racismos ancestrais e redivivos, etc. Em suma, nada que já não tivéssemos visto antes ("and the parting on the left, is now parting on the right, and the beards have all grown longer overnight").
Mas talvez não antes com tamanha profusão, velocidade e aparente sincronia. Pelo menos não muito recentemente.
Eis aí um ponto a reter: a simultânea banalidade (do "mal"?) de todos esses fenômenos, de par com a forte sensação de que parecemos estar diante de poderosas forças tectônicas em movimento.
É claro que a essa altura alguém já tirou conclusões velhas e repisadas: “mas é claro que tais forças têm nome e são bem conhecidas: o “mercado”, o “sistema”, o “capitalismo”, etc”.
Tá legal. Pode ser.
Mas além de aparentemente explicar tudo, sem na verdade esclarecer coisa alguma, esse tipo de resposta pronta não nos deixa ver o que pode haver de excepcionalmente novo, ou inusitado, no contexto atual. Ainda que as tais forças profundas sejam basicamente as mesmas de sempre.
Ou seja: há algo ao mesmo tempo muito mais profundo, superficial e diferente nesta nova deriva continental (ou melhor, global). O planeta certamente deslocou-se para algo que indubitavelmente podemos chamar de direita, atraindo gravitacionalmente inclusive praticamente tudo o que se encontrava ao centro correspondente, e parece encurralar a consequente esquerda, ou nos seus pontos extremos, ou na mais desesperadora impotência.
Mas o estrago pode ser bem maior do que imaginam os novos (?) reacionários e suas claques desavisadas, em meio ao regozijo fugaz e inconsequente que suas vitórias, mais ou menos pirrônicas, proporcionam.
A deriva, tal como um tsunami, leva de roldão consigo as instituições conhecidas e tão lenta e arduamente cultivadas, o que ainda podia restar de sua legitimidade e, assim, suas frágeis, mas às vezes efetivas capacidades e recursos para lidar justamente com os males políticos, econômicos e sociais que nos afligem, e que certamente hão de se agravar e muito no futuro mais imediato.
Parafraseando o dito popular: estamos na selva (ou pântano) sem cachorro (e sem bússola, Baedeker, ou Google Maps).
Tal como o volume morto dos reservatórios esvaziados, as forças tectônicas que agora deslocam o mundo de seus eixos políticos e institucionais prévios sempre estiveram aí, antes, quem sabe recônditas e recolhidas, sob a superfície, a remoer seus ressentimentos, em sua relativa e cíclica marginalidade. Talvez intimidadas pela hegemonia enganosa dos democratas - mais ou menos convictos -, ou pelo autoconsciência, mais ou menos profunda, acerca da pusilanimidade e do caráter pernicioso de seus próprios sentimentos e ideias.
Faltava acordá-las e lhes permitir se assumir de público, reconhecerem-se a si mesmas em sua variedade e contingentes. Além, é claro, de agregar-lhes o assentimento tácito das grandes maiorias silenciosas, o entusiasmo das legiões de neófitos, a cumplicidade dos agentes institucionais irresponsáveis, e o adesismo dos oportunistas.
De fato, nada realmente assim tão novo sob o sol.
E no entanto...

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Trumbo (not Trump)


Só recentemente, aproveitando a folga de fim de ano, assisti a "Trumbo: lista negra", filme de 2015, do diretor Jay Roach, sobre a vida do grande roteirista de cinema americano, Dalton Trumbo. Um tanto quanto linear e previsível, a película, como diriam os antigos críticos de cinema, não obstante vale muito à pena, nem que seja pelo trabalho dos atores – como o indicado Bryan Cranston à frente –, pela divertida reconstituição de época e de certo momento da história do cinema, mas ainda mais pela oportunidade do tema.
Trumbo, o biografado, é um personagem que já desperta curiosidade, independentemente de suas atribulações políticas, pelo conjunto da obra e por chamar a atenção para a importância crucial da arte do roteiro cinematográfico. Além de ser responsável por clássicos como "A princesa e o plebeu" (“Roman Holiday”), "Spartacus" e “Exodus”, ele escreveu e dirigiu um dos mais perturbadores filmes de todos os tempos: o libelo pacifista "Johnny got his gun" (que no Brasil chamou-se "Johnny vai à guerra"). Publicado originalmente em 1939 como romance ambientado no pós Primeira Guerra Mundial, foi finalmente trazido para as telas somente em 1971 (quando os Estados Unidos ainda se encontravam engajados no desastre do Vietnã). Nas palavras de Trumbo, era uma tentativa – terrivelmente bem sucedida – de tornar mais eficaz, via emoções, mensagem que a razão inutilmente repete há séculos: que guerras são uma completa insanidade.
Mas é claro que Trumbo, o filme, gira em torno da perseguição que o personagem principal e tantos outros sofreram nos primeiros anos da Guerra Fria, quando a América foi tomada pela paranoia anticomunista. Retratado no filme como membro um tanto quanto romântico do PC Americano – como, aliás, era tão comum à época – Trumbo e seus companheiros da esquerda hollywoodiana pagaram um alto preço por desafiar a linha de frente da imbecilidade fascista que naqueles anos tomou de assalto setores do Congresso e da sociedade norte-americana. Preso por desacato à Casa dos Representantes (o equivalente americano da nossa Câmara de Deputados) ao invocar a Primeira Emenda da Constituição e a liberdade de expressão, diante de um comitê de investigação parlamentar truculento e recheado de figuras suspeitas – inclusive seu inquisidor-mor, que depois lhe faria companhia na prisão (só que condenado por corrupção) –, com a devida exploração midiática que as tecnologias da época permitiam, Trumbo ainda teve de amargar longos anos de clandestinidade, proibido que estava de ser contratado regularmente por qualquer estúdio, em função do veto da famigerada lista negra imposta sobre Hollywood pelas claques fascistóides que impunham suas vontades e seu jogo sujo de intimidações e tráfico de influências, sob o pretexto hipócrita e alarmista de combate a pretensas “infiltrações comunistas”.
Só por conta de tal contextualização histórica o filme já se mostraria altamente recomendável, e, infelizmente, cada vez mais oportuno. Não só na América, é claro.
Mas outro detalhe que tornou para mim particularmente emocionante a experiência de assistir "Trumbo" foi rever o charme inconfundível das velhas máquinas de escrever das décadas de 1940 e 50. As mesmas que meu pai batucava dia e noite, e com a qual também ele dava vida a seus personagens de ficção (só que a “Hollywood” do meu velho chamava-se Rádio Nacional).
Um brinde então aos ficcionistas de qualquer mídia, mais ou menos ingênuos, idealistas ou desiludidos, sejam eles comunistas, anarquistas, democratas, liberais, conservadores, ou rigorosamente inclassificáveis sob qualquer rótulo partidário ou ideológico.